Feriado
Afinado
Com a chuva:
Finados
[CJ]

He went out. Dói. Leio fragmentos de um texto de janeiro de 2008. A falta que fazia Paula G. que ligava bêbada na madrugada de Israel dizendo que não tinha encontrado o sentido da vida, pelo contrário, andava triste. É judia e nada daquilo fazia sentido. Queria se entregar de corpo e alma a terra que diziam ser sua, mas tudo que fazia era ligar para ele, de madrugada, para dizer que naquela noite, tinha saudade demais. Deu sorte. Falou com os dois amigos ao mesmo tempo. Ele não atenderia dirigindo, claro. Mesmo que fosse eu ligando do oriente médio. Eu lembro exatamente do dia que ele ligou dizendo que iria embora. Disse que tinha conseguido o mestrado, e que no mais tardar em setembro, iria morar na Escócia. Alguns meses depois, e sem que eu aproveitasse direito (A gente nunca consegue fazer as coisas exatamente da forma com que a gente quer) Escócia mudou para Londres e hoje ele anunciou um lindo dia de sol no Coven Garden. É meu melhor amigo, sabe… Daqueles que muitas vezes você não suporta, e morre de raiva, mas é justamente isso que faz com que você tenha certeza absoluta do quanto o ama. Eu conheço os defeitos de Diego F. e justamente por isso, posso dizer que o amo, e que ele é meu melhor amigo. É difícil entender, agora que ele não está mais por perto, que a primeira pessoa que eu vá ver quando alguma coisa legal acontecer, ou quando a coisa apertar, não vai mais ser ele. Porque ele foi a primeira pessoa que eu vi nesses últimos anos, quando qualquer coisa acontecia na minha vida. Ele foi o primeiro a chegar. E na verdade ele vai ser sempre. Mesmo que seja só eu, do outro lado do mundo, imaginando o que ele iria dizer…
P.G
Eu gostaria de escrever uma carta aberta de despedida, mas eu sei que isso não vai funcionar. Queria dizer a todos os amigos o quão queridos eles são e o quanto eles me farão falta. Queria dizer a minha ex-namorada que eu a amei até o meu possível. Queria dizer a todos os colegas o prazer que foi dividir o trabalho. Não há como transpor ao papel tantas coisas… seria uma amálgama de palavras que não fariam qualquer sentido. Calo-me pelo momento, pois tenho absoluta certeza de que o distanciamento físico e temporal me possibilitarão o discernimento necessário. Para escrever todas as cartas, para dizer os devidos “adeus”, para aprender a sentir, amar, viver… Seja o que for que me espera, que seja intenso. E tenho dito.
DF
Pagou a conta e foi embora pensando no que fizera de errado. Afinal, comportara-se daquela maneira com o intuito de ser uma boa companhia para ela, só isso. Não merecia ter sido deixado assim, sozinho naquele café, sem maiores explicações. Chegou em casa com esse fardo, e por causa dele tornou-se ácido. Entrou batendo a porta, não falou com ninguém e foi direto para o quarto. Contentou-se em estar nele, pois assim poderia pensar melhor e assimilar tudo o que havia acontecido. Mas tentava, tentava e não conseguia. Decidiu escrever. Quem sabe se colocada no papel, aquela cena não seria enfim compreendida? A estratégia textual logo veio-lhe a mente. Utilizar-se-ia do processo de empatia, aquele no qual o observador despe-se de si para tentar apreender a perspectiva psicológica do outro. Escreveu com facilidade e talento, e pouco tempo depois, o conto estava pronto. A personagem da menina era patética, limitada, incapaz de valorizar o que é bom. E ele, o superior, o incompreendido, não percebeu que mais uma vez utilizava-se da literatura como um instrumento de vingança.
[CJ]
O sol vermelho sangue
rugiu no horizonte cinza chumbo,
Tonalizando o verde claro
do oceano profundo.
E lá, além da vista,
sua luz refletia
no prisma azul
dos olhos teus.
DF
Traga-me o menu, por favor? Logo que sentaram-se à mesa, foi assim que ele dirigiu-se ao garçom, em um tom polido, com a voz empostada, utilizando as técnicas que aprendera em um curso de oratória. Após esta fala, preocupou-se com sua postura, verificou sua coluna e o ângulo que mantinha entre o pescoço e o queixo. Assegurando-se que sentara de acordo com o que vira nas aulas de ioga, tranquilizou-se, e então abriu um leve sorriso e olhou para ela, que já havia cruzado as pernas e acendido um cigarro. Começaram a falar sobre Tolstói, mas o assunto não rendeu muito. O cappuccino dela chegou, junto do café descafeinado pedido por ele. Beberam rapidamente, o rapaz comeu um pequeno biscoito que viera no pires, levantou-se e avisou que iria ao toalete. Lá chegando, olhou-se no espelho, ajeitou o cabelo com as mãos, verificou os dentes, esperou mais alguns segundos e abriu a porta. Aproximou-se de onde estavam mas não viu a menina, e concluiu que ela também tinha ido ao toalete. Entretanto, quando sentou, percebeu seu engano ao encontrar sobre a mesa duas xícaras sujas e um guardanapo, no qual estava escrito: tchau, seu ridículo.
[CJ]
E do alto da mais bela torre do castelo da melancolia, os gritos ecoam.
Impotentemente calmo, o fiel escudeiro se dirige à porta da torre, apenas para descobrir que não há nada a ser feito, a não ser lamentar sua própria incompreensão sobre acontecimentos pretéritos que perpassam o presente e se estendem no futuro.
Seria o tempo realmente relativo, como predisse o oráculo? Pensou.
Gostaria que a relatividade se manifestasse nesse exato momento, para transportá-lo a épocas outras, nas quais o ar era mais leve e o fardo doce. Face a mais uma pergunta que não poderia responder, o fiel escudeiro cumpre com suas obrigações e retorna ao seu aposento, localizado no nível mais inferior. Já deitado, dirige uma prece a outra esfera, pedindo um sonho bonito que fosse para que pudesse sustentar o sorriso no dia seguinte.
DF
trabalhe com afinco
dê esmola ao mendigo
deixe a velhinha sentar
fale sobre o tempo
cumprimente o porteiro
converse no elevador
beije sua mãe
tome vitamina C
sorria ao ver TV
cante no banheiro
feche bem a torneira
agasalhe-se direito
deseje boa noite
coloque o despertador
apague a luz
masturbe-se e durma
[CJ]
Minha polidez e cortesia, querida, só duram até a quinta dose, quando enfim as ilusões de controle se esvaem e o caos que sou transborda.
DF
Não babe, eu não sou sutil. Nunca foi o meu forte, e você sabe. Choro descaradamente na frente de quem for, não para fazer escândalo, mas porque nunca consegui conter nada que preze. Então, quando da próxima vez eu gritar e fizer uma cena ( sim, vai ter uma próxima vez, mas você sabe, é também só pra você) grita mais alto porque é no barulho que eu calo a boca, e depois me abraça, me chamando de maluca algumas dezenas de vezes para que eu não esqueça, e depois agradece babe, se faz de agradecido por entender que cada grito estridente pelo telefone é sinceridade que não cabe, é amor que não cabe, é esse meu pânico de olhar pra trás e não te ver por perto, mesmo sabendo que você sempre estará por perto. Ao alcance do lápis, perto do coração.
P.G
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