- Talvez o certo seja aceitar que existem traços de nossa personalidade que, por mais profundamente que os compreendamos e tentemos mudá-los, nunca o conseguiremos. E tal se dá pelo simples fato de que essas características foram adquiridas por meio de experiências vividas, traumas sofridos, criação, família, etc. O complexo de emoções e ações que conduzem nossa vida são fruto de uma série de eventos que, individualmente considerados, não fazem muito sentido mas que, se interpretados como um todo, conferem um certo padrão que imbui essência ao indivíduo. Essa constatação, contudo, não é de nada absoluta, haja vista casos nos quais a superação e força de vontade se unem de tal modo que a pessoa conquista a capacidade de se transformar e alterar a lente através da qual enxerga a realidade. Talvez seja essa a grande conquista a ser obtida, quando poderemos dizer que sim, somos autônomos e exercemos nosso livre arbítrio de forma plena. Acredito, entretanto, que para atingir dito patamar o indivíduo deverá, necessariamente, ter empreendido grande esforço para entender e interpretar o conjunto de sentimentos que formam sua existência. Apenas a partir do autoconhecimento que se atinge a auto-suficiência e, logo, a capacidade de transformação.
Finda a palestra, o professor agradeceu aos presentes, assinou a pauta da conferência e se dirigiu ao saguão do hotel, para cumprimentar seus colegas. Muitas palavras de agradecimento lhe foram dirigidas, efusivos abraços encetados e brindes propostos. A palestra fora um sucesso, pensou. Duas horas depois, um pouco embriagado pelo vinho, despediu-se de seus pares alegando cansaço e, por fim, dirigiu-se à saída, onde um taxi o esperava para levá-lo ao hotel. A noite era fria e, apesar do avançado da hora, a viagem ainda seria longa. Pensou em seus filhos, sua mulher, mãe e pai, irmãos, primos e sobrinhos. Todos distantes entre si. Culpou o vinho pelo arroubo de emoção que lhe furtara uma lágrima. Mas no fundo ele sabia o que lhe comovia. Sabia que não lhe restaria muito tempo, que a farsa um dia seria revelada e que tudo aquilo que professara viria ao chão. A cada palestra atendida, a cada aula ministrada sentia-se um grande falsário pois, apesar de acreditar profundamente naquilo que dissera aos presentes, sabia que o pleno entendimento de si mesmo estava muito longe de suas possibilidades. Não seria nessa vida que ele seria capaz de superar seus próprios tormentos e tornar-se o homem que gostaria de ser. Era, sabia, apenas mais um hipócrita a vender falsas esperanças aos incautos e desesperados.
DF

Comentários