Back again

Se for para falar de amor chama a Paula, porque é Ela quem sabe colocar em palavras a angústia desse sentimento, tantas vezes reles,

por vezes escudo,

certas vezes hipócrita,

umas vezes obtuso,

às vezes calmo,

muitas vezes agudo.

Queria eu ter a coragem de encarar de frente esse monstro e domá-lo não a forceps, mas a escrita.

DF

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Primavera

Que venha a Primavera

e com ela as cores,

delirantes e febris.

A desembocar no Verão

e numa expectativa

de familiaridade.

Tão longínqua esta,

que já não se sabe

em qual quadrante

da memória se estabeleceu.

DF

Ohayo

Ao cruzar não sei quantos meridianos rumo ao Oriente, senti uma sensação esquisita de que estava viajando para o futuro.

As horas passam lentas dentro de aviões apertados e aeroportos padronizados… não há mais posições que seu corpo possa ocupar que não causem desconforto. Os pés incham e não cabem mais nos sapatos. Achei que sofreria uma trombose, tal qual meu avô que não conheci.

Finalmente, ao chegar em Tóquio, sinto que estou fora do tempo. Presente é futuro, presente é passado. Estarei presente?

O sangue que escorre do meu nariz indica que sim, estou presente e quase vivo. Não sei qual horário atua sob o meu corpo, quais espaços o tempo ocupa na minha mente ou se a estranheza dos lugares e pessoas é real ou um mero devaneio provocado por remédios indutores de sono.

Tudo é lindamente estranho.

DF

Ficção

Aconteceu novamente. Os compromissos de trabalho criaram um obstáculo na vida amorosa. A recente vitória profissional amargara sua pujança. A questão que se punha, ou melhor, que se impunha, era ela se mudar junto com ele para Nova Iorque ou término. Proposta essa que foi colocada após fora apresentada a dele: aguentar a barra de relacionamento a distância por um tempo que fosse, seis meses? Nesse ínterim ele se ajeitaria na nova cidade e ela buscaria emprego, que pudesse patrocina-la um visto.

I’ve been there. Not doing long distance anymore. Without intimacy it won’t last.

Então. Pois ele viajaria para casa por conta de Natal e voltaria com uma resposta. Ponderou que levava essas coisas muito a sério, ainda mais porque se conheciam há dois meses. Ela se mudar com ele significava uma coisa: casamento. Ela sabia disso. Casar, ao ver dele, era um contrato que estabelecia uma relação jurídica bem séria, sem falar emocionalmente. Como poderia ele, questionava, assumir essa função? Ele não teria dias fáceis em Nova Iorque por uns dois anos. Ele sabia disso.

A questão não lhe era estranha. Há cinco anos, ele havia se defrontado com dúvida similar, ao ter aceito uma proposta profissional que lhe trocara a cidade. O contexto era diferente, entretanto. Morava com esta já havia um bom tempo e a relação não ia nada bem. Decidiram, juntos, que não valeria a pena – a admiração mútua fora embora.

Julgava, em seu desconhecimento, que era algo astrológico. Fora de seu controle, agora que a mesma questão se colocava frente a ele.

Deal. I will think about it – let’s meet in a week when I’m back.

E lá se foi ele, westbound no metro rumo ao aeroporto, com a cabeça feita em pedaços assimétricos sob o peso da verdade que teria de enfrentar.

DF

Encontro

Encontrava-me sentado na frente de um grande amor do passado. Há dez anos não nos víamos. Ela estava vestida de uma forma bem casual, calça jeans de lavagem escura, uma camiseta listrada branca e preta que mostrava o pescoço alvo e uma medalha dourada, uma jaqueta de lã por cima finalizando com um all star branco. Nos poucos momentos em que sorriu, percebi que o sorriso era o mesmo: covinha na bochecha esquerda, os dentes da frente largos e o lábio superior um pouco menor que o outro. Os olhos, contudo, aqueles olhos redondos e castanhos, esses não. Denotavam um certo cansaço e eu ainda não sabia o que se passava. Por um momento queria ler a mente dela para saber o que ela achara de mim… estaria também de alguma forma diferente aos seus olhos? Fiquei sem saber.

Conheci-a há bem mais que dez anos, numa viagem maluca por um lugar encantado. Ao retornar, deparo-me com e-mails dela e depois da primeira resposta, correspondemo-nos incessantemente por anos a fio. Um caso de romance epistolar, se é que existe tal coisa. A vontade, certamente romantizada pela distância, era de casar, ter dois filhos, um casal por certo; cachorro, quiçá um Golden; casa na praia e all that jazz. Isso sem mesmo saber qual era o gosto daquela boca, a suavidade do toque, seu cheiro e sexo, mas tudo bem. Se minha mente não me trai, acredito que uns quatro anos depois finalmente nos encontramos. Nunca irei me esquecer do clímax daquele momento: prédio de cinco andares, daqueles velhos construídos apenas com escadas e um elevador pantográfico instalado depois; ela subindo devagar, olhos nos meus e um sorriso nervoso, as mãos sem posição; a porta se abre e um momento de hesitação – beijo, abraço? Ambos… longos e sôfregos, desesperados. Depois disso, amamo-nos por dias e dias, incontáveis horas passadas em cidades barbaras.

Quando a olhei novamente, queria que aquela cena se repetisse, o que não foi o caso. Queria lhe dizer que no fundo ainda a amava, que havia aprendido muito com tudo o que me havia passado, que a faria feliz longe de tudo e todos se precisássemos e que teríamos – outra vez – filhos e cachorros e viveríamos perto do oceano em algum lugar de temperatura amena. Queria que ela me olhasse e sorrisse, dizendo sim para todo aquele meu sonho antigo, ainda latente. Não foi o caso. Limitei-me a perguntar como ela estava, como se sentia, o que havia passado. Foi então que soube da existência de duas pessoas, uma aqui e outra acolá, ambos queriam compromisso e ela não sabia bem o que fazer. Que havia pedido demissão, largado uma carreira na profissão que escolhera e dedicara anos de sua vida adulta. Que estava cansada da escuridão da cidade, seu vento frio de setembro a março. E, por fim, aquele comentário: what a bad timing.

Ao cacete com isso, pensei sorrindo ao tentar demonstrar empatia. Queria lhe dizer que tudo ficaria bem, mas não consegui. Entrei em modo de sobrevivência, terminei o jantar o mais rápido que pude mantendo a elegância.

– Foi ótimo revê-la, você não mudou nada.

Ela não acreditou, repetindo que a mesma coisa se passara comigo. Tampouco acreditei.

DF

Compromisso de Berlim

Há dez anos tivemos um filho, fruto de um amor incondicional à palavra escrita. Mesmo antes da publicação do nosso livro, entretanto, já não escrevíamos com o mesmo afinco de quando começamos o projeto, dois anos antes.

Houve alguma razão para tanto? A nossa paixão pela literatura e pela escrita diminuiu, mudou ou de alguma outra forma se desvirtuou? Creio que não. Na visão deste que vos escreve, acredito que, à exceção de uma pessoa, os demais membros resolveram dedicar energia a outros projetos, estudos, carreira, amores, família, etc.

No meu caso, sinto lhes dizer que repito as mesmas desculpas há dez anos: deixei de escrever porque doía demasiado, a angustia que alimentava meu processo criativo passara; deixei de escrever porque trabalho demais, meu Eu lírico afundado em planilhas, trabalho; deixei de escrever porque não leio mais tanto, meu tempo livre preenchido por séries, filmes e outras drogas.

A verdade, meus caros, é que sou covarde. Apavora-me a ideia de olhar para dentro e ouvir meus sentimentos, ainda tão confusos no auge dos meus 30 anos. Apavora-me olhar para uma tela ou caderno e encarar o receio de não conseguir escrever no mesmo nível de antes. Apavoro-me.

No entanto, gostaria de lhes dizer que não quero mais sentir medo. CHEGA. Não quero mais fingir que inexiste dentro de mim um passageiro que grita para ser ouvido. Não quero mais entorpecer meus sentimentos pelo medo de que perderei controle. Não quero.

Dessa forma, convoco-lhes às armas mais uma vez, para que juntos consigamos reestabelecer um diálogo com a palavra escrita e não somente com ela, mas com qualquer meio de expressão que nos sirva de catarse criativa.

Dez anos depois, cavalgarmos juntos novamente pelas vias incertas de nossos sentimentos, com apenas um objetivo em mente: expressão artística. Este é o compromisso que lhes proponho. O que dizem vocês?

DF

London I love you, but you’re freaking me out…

O passado nunca mente, meu caro. Não há como escapá-lo. Deve-se tentar encará-lo de frente, ainda que se tente emendá-lo. Tentou? Não deu certo? A frente. Por mais que doa, por mais que se sinta incompreendido ou por mais que se reconheça um merda, siga em frente. Nada há de parar por você. O tempo, os sentimentos, não pararão. Sinto muito.

Por mais que as vezes se pense que, na verdade, existem coisas mais relevantes que meros percalços, nunca se pode extrapolar sua própria interpretação do ocorrido aos demais. Nunca entenderão. Ainda que se cogite a idéia de que o havido foi mais importante do que qualquer outra coisa, ainda que o sentimento esteja lá, nada irá apagar os fatos.

Sinto muito.

Cresça e apareça.

DF

A falta que me faz Diego F.

He went out. Dói. Leio fragmentos de um texto de janeiro de 2008. A falta que fazia Paula G. que ligava bêbada na madrugada de Israel dizendo que não tinha encontrado o sentido da vida, pelo contrário, andava triste. É judia e nada daquilo fazia sentido. Queria se entregar de corpo e alma a terra que diziam ser sua, mas tudo que fazia era ligar para ele, de madrugada, para dizer que naquela noite, tinha saudade demais. Deu sorte. Falou com os dois amigos ao mesmo tempo. Ele não atenderia dirigindo, claro. Mesmo que fosse eu ligando do oriente médio. Eu lembro exatamente do dia que ele ligou dizendo que iria embora. Disse que tinha conseguido o mestrado, e que no mais tardar em setembro, iria morar na Escócia. Alguns meses depois, e sem que eu aproveitasse direito (A gente nunca consegue fazer as coisas exatamente da forma com que a gente quer) Escócia mudou para Londres e hoje ele anunciou um lindo dia de sol no Coven Garden. É meu melhor amigo, sabe… Daqueles que muitas vezes você não suporta, e morre de raiva, mas é justamente isso que faz com que você tenha certeza absoluta do quanto o ama. Eu conheço os defeitos de Diego F. e justamente por isso, posso dizer que o amo, e que ele é meu melhor amigo. É difícil entender, agora que ele não está mais por perto, que a primeira pessoa que eu vá ver quando alguma coisa legal acontecer, ou quando a coisa apertar, não vai mais ser ele. Porque ele foi a primeira pessoa que eu vi nesses últimos anos, quando qualquer coisa acontecia na minha vida. Ele foi o primeiro a chegar. E na verdade ele vai ser sempre. Mesmo que seja só eu, do outro lado do mundo, imaginando o que ele iria dizer…

 

P.G