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Assim


 

Ver-te assim,

verde,

lembra-me o lago

límpido,

memórias do amor vivido. 

 

Tocar-te assim,

branca,

lembra-me a lua,

lenço

que deixaste em minha cama.

 

Sentir-te assim,

cinza,

lembra-me a pedra -

frágil coração

que quebra.

 

 

 

[CJ]

Insônia.

*Ouvindo Strange Fruit – Billie Holliday 

 

Procuro, eu juro (esfregando a mão na testa tentando me fazer acreditar que é verdade) meios eficientes que coloquem meus pés no chão.Procuro a felicidade empoeirada atrás dos sofás da minha casa e percebo que ela sempre esteve mais perto do que eu imaginava.Anoto coisas para a terapia do dia seguinte,te escrevo uma carta de amor de três páginas inteiras prometendo mundos e fundo até o próximo mês.Eu te amo,você não vê? Está escrito na minha cara, nas minhas coisas,no seu corpo (fiz questão de deixar marcar e palavras escondidas atrás de suas dobras),deixei exposto na sua casa,deixei meu cheiro,meu resto,minhas guimbas de cigarro espalhadas pelo seu chão p-e-r-f-e-i-t-a-m-e-n-t-e limpo e fiz questão de esquecer minha blusa e minha vergonha dentro do seu armário.Eu te amo,e te disse isso baixo no pé do seu ouvido tomando cuidado para que você não percebesse.Lembra daquele dia em que eu gritava e te dizia que nunca ia conseguir ficar do seu lado porque você é louco,é neurótico,é impaciente,é destrutivo?Pois é,essa foi minha maior declaração de amor,eu te amo.Te amo no meio dessas coisas todas,entre o seu fechar de portas na minha cara,nas suas acusações sobre amor a outros caras,na sua prova de não amor toda vez que você me encontra,na sua mão que pega a minha mão também escondido de todo mundo,para que ninguém veja que você me ama e que eu sou louca.Que você me ama porque eu sou louca.Eu nunca disse isso pra você mas… “Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma tão distraidamente”. Vai,grita pra mim que não sou escritora,berra no meu ouvido a quantidade de frases feitas e citações que eu prego por minuto,queima meu livro da Ana Cristina César e me desafia a fazer melhor,invade minha casa,agora,ás 3h da manha e me dá algo para conversar,para viver,para trocar.Vem e eu te prometo amor eterno durante esse noite toda além de pés quentes e um chá para melhorar essa sua doença que não passa.Isso é declaração de amor,e só você não enxerga.Chega,me chama de monotemática,diz que não tenho talento,descasca seu rosário de insatisfações e depois se afunda dentro desse edredom comigo para que ninguém veja que você me ama e que eu sou louca.

 

Para que ninguém veja que você me ama porque eu sou louca.

 

P G.

Aux vénérables messieurs du club du hashishins

(Aos distintos senhores do Club do Haxixe)

Dei dois tragos,

Que me deram dois versos,

Tão perfeitamente convexos,

Que me assustei, confesso.

Era pura poesia,

Que do nada vinha,

Surgia, assim, simples,

E deixava minguante,

Minha cara triste.

Tão perfeita no espaço,

Eu a via, mas não atingia.

Esticava a angústia,

Entrava em colapso,

Mas apesar dos atos,

Ela se desfazia,

Só me deixando a melancolia.

[P.k.]

Poema clichê

Tudo tornou-se clichê:

a palavra clichê,

a palavra nada,

a própria palavra

 

de tudo cansou-se.

Não pode mais tornar-se.

 

Ela se e s t i c a, se-para,

continua,

e mesmo assim

soa forçada.

Tudo é exótico:

o senso comum

choca mais que filme erótico.

Não venha-me com padrão,

alternativa

ou solução.

Não venha-me com rima

nem com paixão.

Tudo é ridículo.

 

Drama queen desde criancinha.

*Ouvindo Grace Kelly – Mika (Porque alguma coisa nesse texto tem que ser feliz rs)

Começo pedindo licença, para que a prosa que sai pelos meus dedos se assente nesse espaço em branco e comece a contar sua história. (História essa que não imagino o que seja,pois há muito tempo deixei de ter poder sobre as palavras que escrevo) Escrevo compulsivamente para botar pra fora o que eu não consigo gritar,e por isso escrevo palavras para que percorram seu corpo e digam no seu ouvido tudo o que eu queria dizer mas não consigo.Essa sobriedade de vida me deixa louca e por isso assino minha alforria de cotidiano com caneta e papel.Uns são temáticos,eu sou monotemática (e problemática).Quem acha que escrever é bonitinho não sabe a maldição que carrega quem escreve e acaba vendo a vida em technicolor,com trilha sonora de Ipod,fazendo de tudo um grande drama,vendo o amor e qualquer outro sentimento funcionando apenas nesse espaço em branco que te implora para ser preenchido.Mas e eu, QUEM ME PREENCHE?

” Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo.”

O que tem que ser preenchido é a folha em branco.E é por ela,grande senhora da minha vida,que dedico meus dias,minhas horas,meu sabotamento,meus grandes amores e minhas inúmeras paixões.Minhas palavras tem vida própria,meu coração não.Aqui dentro estou trancada.Para dentro e para fora,ninguém entra mas ao mesmo tempo ninguém sai,mas ao mesmo tempo ninguém sai,mas ao mesmo tempo NINGUÉM sai.