Deus ex machina

A frieza inerte rompe-se subitamente. O gatilho é premido, o cão desloca-se rapidamente batendo no percutor. Tal qual martelo em prego, deforma a espoleta, provocando sua explosão. A chama causada pela espoleta penetra no cartucho furiosamente, resultando na ignição da pólvora alojada no mesmo. A ignição libera gases que aumentam vertiginosamente a pressão e a temperatura interna do cano, empurrando o projétil para o exterior. Os raios internos do cano atuam como estabilizadores, gerando força centrípeta que confere ao disparo maior precisão e poder de parada. A gravidade e a resistência do ar dão ao projétil expulso da arma uma trajetória parabólica, ao mesmo tempo em que este roda sobre seu próprio eixo. O disparo colhe a vítima no tórax. A desaceleração instantânea do projétil é devastadora, ao gerar uma onda de choque no ponto de entrada, dilacerando tecidos, ossos, órgãos vitais, tendões, músculos e artérias. O ponto de saída é consideravelmente maior que o ponto de entrada, tendo em vista a atuação das forças da mecânica, que expulsam o projétil e tudo o mais como um cometa. Após esse percurso, o projétil satisfeito se aloja na parede imediatamente situada atrás da vítima, que vai ao chão. O estampido surdo se esvai no tempo, como o sangue escorre pelo esgoto. Ponto final.

 

DF

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Digital e coisa

 

um trago no cigarro

e em meus pulmões

a fumaça

transforma-se em linguagem

me vêm palavras

entorpecidas

que não formam poesia

 

– desconexas –

 

uma poesia desconexa

pra tentar

fazer sentido

 

– pra se fazer sentir –

 

desconexo

do mundo

mesmo na internet

 

 

[CJ]

Energia Divina S.A.

 

Não haveria o céu

Do cerrado

Com suas cores

De um pavão emplumado

 

Nem mesmo o leite

Deleite de fixar

As órbitas de nossos olhos:

No cantinho a namorar.

 

(Pois não haveria namorados,

Sonetos, novos ou passados,

Nem mesmo livros, ou algo,

Ou qualquer retrato encaixotado)

 

Se Deus não se fizesse presente

Na luz que o fóton acende.

 

 

[p.K.]

O conto de um ponto

Eu era um ponto reflexivo e aleatório a caminhar pelas calçadas da cidade – a conhecer a vida crua: o lixo amontoado nas esquinas, o gás carbônico impregnado no ar, as pessoas ofegantes. E eu era fluido, como a energia solar, que entra com dificuldade nessa nossa atmosfera. Muito fluido eu era: quase alcançava meu espírito, e isto me incomodava. Se um dia nesse ponto eu chego, hei de morrer, eu pensava. Mas nunca não me permitia ter outros tipos de pensamento, desses que se ocupam das desgraças climáticas e da miséria alheia. Desses que esgarçam qualquer tipo de lógica ou coerência – mas isso eu fazia pra me enrijecer, pra permanecer vivo. Me enfiava nos becos, cheios de ratos, e nas tavernas: absorvia-os – os pensamentos: os buscava. Nos dias que meu tédio não estava de flanar, ainda assim eu os buscava, era só ler o jornal. E em todos esses dias, fui humano, muito humano. Menos naquele, em que eu era um ponto reflexivo e aleatório a caminhar pelas calçadas da cidade – a me elevar mais que podia.

 [CJ]

Alvo: político.

Na infame luta
Desesperada
Pelo controle
Da democracia loteada

Me vejo agora
Ameaçado
Pela caça desenfreada
Do operário salafrário.

Para eles:
Sou culpado.
Sem direito a desculpas,
E vivo tendo minha família ameaçada

Pelo braço jurídico da escuta.
Enquanto queimo
Paciência e lembranças
Rezo pela minha família: perseverança.

E que no fim
Eles acreditem
Que entre emendas
E ementas,

Entre presentes
E sentenças,
O Brasil segue:
Seguindo.

De amigo
A amigo,
De amigo
A amigo

Cujos laços
tão antigos
Perdem-se nos corre-dores
Do Poder.

[p.K.]

Noite em Paris

There I was… in a hostel in Paris. A really fucked-up one. And it was packed with kids… from all places. So we were relaxing in the courtyard after a tiring day of walking, museums, parks…enjoining some beer and wine as well. Out of the sudden we started playing those drink games… and it happened that I kissed an Aussie girl during the course of the game. Afterwards we all went to some sort of low-class pub nearby the hostel, and some American fellows were paying everybody drinks. Really nice of them.

– Sure, considering the prices in Paris.

Exactly. And after three to five beers we all went back to the hostel. The night was dark and the walk was long. So finally after that freezing walk home the Aussie girl took my hand and said nothing. I followed her upstairs. She entered into a bathroom, turned to me and said: “Come on in”. And I did come in.

 

DF

 

“Teu corpo combina com meu jeito”

Desculpa mas eu não sei lidar com isso. Já passei por essa situação, claro, mas foi a muito tempo atrás e a partir disso eu comecei a não querer me envolver muito com as pessoas e deixando com que elas gostassem mais de mim do que eu delas, eu acabava não gostando mais de mim, nem delas.Desculpa colocar uma blusa qualquer assim tão rápido, mas eu acho que meus defeitos se escondem atrás das minhas pintas, por todo o meu corpo e não quero que você fuce, olhe, repare nas imperfeições aqui de dentro, e nem nas de fora, que para mim gritam. Desculpa esse mal jeito de telefone, essa coisa de falar, falar e não conseguir dizer apenas o necessário. Eu nunca fui de necessário, eu só funciono no excesso, no muito,no que transborda,e de repente me vejo completamente vulnerável aos seus momentos de silêncio, que me fazem pensar, e as vezes não é tão legal estar aqui dentro. Mas você provoca, provoca sensações tão obscuras que eu morro de medo. Eu estava acostumada com o conhecido, com um terreno que já era meu, com minha arrogância sentimental ridícula, e assumida, e de repente você chega, domina os cômodos da casa, se transforma nos meus objetos, vira referência,vira saudade.E eu não sei lidar com isso. Eu realmente não sei lidar com isso.Eu bebo um gole a mais e tenho certeza absoluta que você pode ficar quieto pro resto dos dias que eu me viro, dou um jeito, engulo as palavras e converso com outros, porque é só me encaixar embaixo dos seus braços que eu suporto tudo, até essa insegurança tão nova que hoje divide a vida comigo.

Fudeu

Amo, o