O conto de um ponto

Eu era um ponto reflexivo e aleatório a caminhar pelas calçadas da cidade – a conhecer a vida crua: o lixo amontoado nas esquinas, o gás carbônico impregnado no ar, as pessoas ofegantes. E eu era fluido, como a energia solar, que entra com dificuldade nessa nossa atmosfera. Muito fluido eu era: quase alcançava meu espírito, e isto me incomodava. Se um dia nesse ponto eu chego, hei de morrer, eu pensava. Mas nunca não me permitia ter outros tipos de pensamento, desses que se ocupam das desgraças climáticas e da miséria alheia. Desses que esgarçam qualquer tipo de lógica ou coerência – mas isso eu fazia pra me enrijecer, pra permanecer vivo. Me enfiava nos becos, cheios de ratos, e nas tavernas: absorvia-os – os pensamentos: os buscava. Nos dias que meu tédio não estava de flanar, ainda assim eu os buscava, era só ler o jornal. E em todos esses dias, fui humano, muito humano. Menos naquele, em que eu era um ponto reflexivo e aleatório a caminhar pelas calçadas da cidade – a me elevar mais que podia.

 [CJ]

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4 comentários em “O conto de um ponto

  1. valeu pela força galera… e me permitam revelar de onde surgiu a inspiração pra esse conto:

    “Milhões de ruídos corrompem meu silêncio
    Vindo como tormenta pela janela da rua
    São bocas, buzinas, bucetas no cio
    Contando histórias sobre a vida crua.”

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