Confissões de um escritor em crise.

Ontem me perguntaram o real motivo da literatura. Pelo menos a minha. Ainda citaram Ubaldo dizendo que fazia só para ganhar dinheiro, Proust e as madeleines e eu, com minhas mulheres. E olha que eu tenho 35 anos e uma mulher. Essa coisa da publicação na minha vida foi loucura demais. Um dia olharam minhas coisas na universidade, gostaram de ver um macho expondo suas vísceras e resolveram publicar meu primeiro livro de contos. Que foi o “Gozando (n) a vida. Foi legal, noite de lançamento, o sorriso dos meus pais com a possibilidade de contar pra todo mundo que eu finalmente ia sair de casa e era agora um autor de relativo sucesso. As coisas foram andando, Bienal, Flip, porres homéricos por Paraty e adjacentes, estudantes de letras de 20 e poucos anos abrindo as pernas por onde eu passava… Porque eu sou um cara bonito sabe, e ainda falo de amor, e um amor vivido por elas, aliás, com elas, pelos bares da lapa, apartamentos dessas mesmas estudantes de 20 e poucos anos que moram sozinha por causa da faculdade e tem seus livros espalhados pelo quarto. Meninas que acham que ler Bukowski muda a vida de alguém e que o máximo de erudição existente está em Borges. Ok, talvez tenham um pouco de razão, mas acontece que depois do primeiro livro eu assinei com aquele diretorzinho lá que todo mundo diz que “é bom pra cacete e tal” , o que vive com o nariz grudado na brela e que tem uma família linda enquanto come todas as atrizes que fazem qualquer um dos seus filmes. Pois é. Pô, será que eu posso estar falando tudo isso? Bem, posso né, eu to pagando. Então, aí o tempo foi passando, eu escrevendo, achando tudo o máximo porque na realidade cara, é a única coisa que eu sei fazer, que eu gosto de fazer, e que me sinto bem fazendo, e quando você gosta mesmo, não ta nem aí pra nada, nem aí se chamam sua literatura de “menor” que nem aquele filho da puta lá do “Prosa e Verso” que diz que eu quero ser Nick Hornby pelas minhas citações de bandas, discos e filmes, e sabe o que é mais engraçado cara? Eu nunca li Nick Hornby. Nunca, aliás, nunca tinha lido, mas se eu escrevo que nem o cara fiz questão de passar agora na livraria e comprar o livro. Aqui ó (tira o livro da bolsa e mostra para o analista) “Co-mo s-er lê-ga-l” É o nome do livro. Bacana né? Pois é, meu medo é gostar muito e realmente começar a escrever como esse cara. Daí lembrei do Cuenca, sabe o Cuenca? Aquele do “Corpo Presente” ? Pois é, grande cara, então, quando o cara lançou o primeiro livro disseram pra ele que ele escrevia igual ao Noll, sabe o Noll? João Gilberto Noll, então, e o cara também nunca tinha lido, e só depois dessa foi comprar o livro. Eu acho tão engraçado essa coisa de literatura e de “segundo o autor” sabe… Porque na verdade, pelo menos no meu caso, nem eu sei porque as coisas que eu escrevo são desse jeito. É porque eu já levei o caraleo com mulher? Pode ser, é porque eu tive que me virar desde cedo? Também, é porque eu fumo muito e realmente gosto de toda essa coisa de noite? Sei lá, mas sei que sou um filho de uma puta que ama as mulheres, um bom leitor e um cara que adora uma cachaça e é viciado em róquenrol. E por isso sai assim, mas enfim doutor, meu caso aqui é outro. É que eu to meio em crise sabe, eu tô com essa mulher, a Ana, por seis meses, mas ela é meio maluca, é bem mais nova do que eu, também quer ser escritora e eu comecei a escrever só sobre ela, não consigo mudar o foco e meu editor tá reclamando. Sempre tive controle dos meus sentimentos, mas agora eu abro o cacete do word e a primeira coisa que eu escrevo é “ela”…Peraí, me mandaram perguntar qual é sua corrente. É freudiana é? E você acha que vai resolver meu problema doutor? Ah…sem doutor? Então tá…. Marcos, vou te chamar de Marcos. É pra criar uma relação mais intima entre paciente-terapeuta? Ok.. vou voltar, mas então Marcos, essa garota….P.G

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4 comentários em “Confissões de um escritor em crise.

  1. Antes que você se assuste, Paulinha, eu não sabia que estava prestes a escrever algo tão grande quando decidi comenatr sobre seu texto, mas creio em que você irá gostar. Com sua licença, gostei tanto deste meu texto-comentário que ele se tornou uma crônica em meu blog, cujo tema principal foi a maldede de uma certa Paulinha que ainda não conheço muito bem, porque a conhecia como outrém. (Rimou!) Espero que aprecie esta minha confusão toda, que você deve entender melhor em meu blog. Caso o link não esteja aí, o endereço é http://cronicocronista.wordpress.com/ e você não perde por acessar! (Uau!) Muito obrigado, Paulinha. Muito obrigado mesmo!
    Bruno

    “Eu não costumo abrir blogs como o seu. Sempre prefiro evitar, porque sei que essas coisas no tom preto escuro (com o perdão do paradoxo) podem me deixar encucado, sabe? Mas resolvi abri o seu pra ler este texto, cujo título estava entre os ‘top posts‘ da WordPress. (Meus pêsames: você é ‘top‘!) Como esse título me chamara a atenção, porque indica quase que uma metalinguagem sobre o ato de “cronicar” (tema recorrente também em meus textos), resolvi conferir, e gostei bastante. Achei bastante característico, pelo menos dentre as coisas que já li, mas podia ser que eu achasse outra coisa se tivesse lido o tal Nick Hornby. (Interessante usar pessoas como objeto direto do verbo ler, não?) De qualquer forma, se for para comparar com algo que eu já tenha lido, seu texto me pareceu suficientemente ‘vão-todos-para-o-quinto-dos-infernos-e-se-possível-para-o-sexto-também’ para se assemelhar, quanto à mensagem, a Rachel de Queiroz ou, dentre os contemporâneos, Aranaldo Jabor, e espero sinceramente que isso seja tomado como elogio. Além disso, quase senti o veneno da voz suave de Lauren Weisberger em sua bla-bla-blenta descrição desbla-bla-blada de “O Diabo Veste Prada”. Porém, o melhor de tudo foi o mono-diálogo com o terapeuta: jogada incrível, um verdadeiro “gran finale“!

    Poxa, eu tô aqui analisando seu texto e enchendo o saco há um tempão e nem me apresentei. Meu nome é Bruno e não sou nenhum grande escritor e…

    Peraí, eu tô falando esse tempo todo com um homem ou com uma mulher? Eu jurava que era homem, porque só li o texto, mas tem uma Paulinha ali em cima dizendo que o texto é dela. Peraí outra vez, que agora eu tenho certeza: eu não havia reparado no “postado por Paulinha”… Desculpa aí, Paulinha. Você é gorda? Fala que sim! Bem que podia ser! Seu texto tem uma cara gorda, e isto também é elogio, viu? Pelo menos diz que tem alma de gorda, diz!

    Bom, eu ia dizendo que eu ainda não tinha editor, mas que aspirava a ter algum um dia, nessa minha coisa meio midialogia/jornalismo/publicidade/blá-blá-blá (literalmente, afinal, quer mais comunicação que ‘blá-blá-blá’?). Eu acreditava que você era homem, que tinha 35 anos e que tinha uma mulher. Droga! Você pôs tudo isso abaixo, assim, de uma vez só! Malvada…

    Eu acreditava que você tinha essa vida de livros publicados, autógrafos, editores, colunas e muitas etecéteras, mas você, Paulinha, simplesmente arrancou a máscara e só me deixou ver um rosto borrado! ‘Ah, que me esmaga a sensação do nada!’ (Maldito Schopenhauer!)

    Eu estava crente em você, Paulinha, mas em você enquanto homem, 35 anos, uma mulher, crise no relacionamento, rock’n’roll, terapeuta… Eu tinha certeza de que você era o contato essencial para alavancar minha futura carreira de escritor! Droga! Você não existe! E a minha carreira também não!

    Eu estava prestes a lhe implorar para que me iniciasse nesse mídia-meio, mas você simplesmente não pertence ao mídia-meio! Eu me sinto como uma criança que acaba de ganhar diploma de pré-adolescente seguido de um ‘Jogue os brinquedos fora!’… E ela era apenas uma criança!

    Você é má, Paulinha, muito má. Má como a maldade, como a maldade mais maldosa que existe! E você há de pagar por isso. Porque se você criou um cara de 35 anos com mulher e terapeuta que não existem de verdade, você é responsável por ele. E como eu haveria de a ele conceder a bênção (ou desgraça, que já nem sei mais…) de ser meu primeiro contato neste novo mundo de blogs, na impossibilidade disto acontecer, você se torna automaticamente o meu primeiro contato, e deve exercer todos os seus deveres. Agora, se vira!

    E eu que nunca soube ao certo o que significava uma frase… ‘Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas.’ Você que o diga! Não é mesmo, Paulinha?

    OBS: Ainda bem que eu não costumo ter muito controle sobre as coisas que escrevo, Paulinha… Te espero no meu blog!”

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