A cada 3,5 segundos uma criança morre de fome no mundo.

Cai as horas a fora,
Aqui dentro uma angústia me deflora.
Rezo como santo diante da cruz
Pedindo respostas pro menino Jesus.

Peço que arranque minha mão,
Minha vaca, minha faca, meu sertão,
Mas alivie a dor de meu menino
Que chora baixinho pela falta de pão.

Sem ter o que comer,
Sem ter onde morrer,
Nem chegou a sonhar,
Que um dia cresceria
Para a pobreza superar.

[pK.]

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Para a minha mãe. E para a sua também.

Joana liga toda hora. É atenciosa, carinhosa, emotiva, passional e assustadoramente parecida comigo quando eu tinha a idade dela. Maria é quieta, fria, tem jeito de artista e é uma, é dramática mesmo que não seja passional. Eu acredito na diferença das duas coisas. É engraçado isso, de você passar a juventude enfurnada em movimento estudantil, namorando vários caras, tendo 20 anos em 78, tendo dinheiro, estabilidade, Tropicália e amor livre, e de repente, você engravida e entende quando vê a cara do seu filho, que nunca mais vai amar nada na vida a não ser aquela pessoa. É inexplicável, porque um dia, eles crescem e conseguem amar todas as coisas que não são você, logo você, que esqueceu o significado de egoísmo quando colocou seu primeiro filho no mundo. E tudo dói. A decepção dói, eles saem de casa e dói, elas dormem com os namorados no quarto ao lado do seu e dói, e fazem tatuagem, e freqüentam o movimento estudantil, e continuam ouvindo Caetano, e acham que a Tropicália é o máximo e praticam amor livre, e você se vê estampada de forma gritante em cada gesto e atitude delas. Há vinte e seis anos atrás eu fui entender o que era amor de verdade. Talvez eu tenha amado demais, no primeiro filho você esquece que está moldando um ser humano, que vai ter que passar por decepções ao longo da vida. Você ama tanto que acha que o seu excesso de amor protege de todo mal. No fundo sim, porque não importa se ela um dia te xingue, jogue algo na sua cara, te mate na terapia ou simplesmente te ignore e ignore o fato de que você tem uma vida própria e por isso não pode atendê-la vinte e quatro horas ininterruptas, porque você perdoa toda e qualquer coisa, e no fundo, está lá vinte e quatro horas ininterruptas. Depois que elas crescem e você não tem mais o que fazer, não adianta esperar os netos. Suas filhas que não querem ter filhos acabam com a sua idéia de continuidade da sua vida. A não ser que como eu, um dia elas engravidem no meio da vida boa, com maridos ou com mulheres, com trabalhos ou namorados passageiros, com a tropicália tocando ao fundo ou ouvindo algo esquisito que elas descobrem todos os dias, e na hora em que suas filhas virem os próprios filhos pela primeira vez, possam entender como eu entendi, que não se pode amar mais nada no mundo com a mesma intensidade, e daí, todo outro amor parece pouco, e no fundo é.

Metáfora do indizível

O silêncio
Às vezes é palavra
Às vezes é tesão
Às vezes não é nada.

Às vezes
Nem agüenta
Terminar o diálogo
Antes de acender o cigarro.

O cigarro
Que me lembra
Seus pés e algemas
No universo de pernas

Da cama
Bacia de lembranças
De quem ama
De quem cora:

“Óh! Aurora!

Nós dois
Somos um: gozo
Explicação de uma metáfora
Sobre o indizível.”

[pK.]

“I belong anywhere but in between”

É palpável. A solidão, a quietude, o buraco, são todos absolutamente, palpáveis. Só o amor não é palpável, nem o momento do toque, nem o sexo, nem os pés que se procuram, nem nada que eu sinta, mas de resto, tudo é concreto.Colocar em prática o que não é palpável dói, esse não saber lidar com as coisas, esse não saber de nada e ao mesmo ter tudo, a insegurança que antes é o que alimenta, mas de uma hora para outra se torna o evitável. É inevitável.

A saudade é palpável, a solidão quando se está junto é palpável, o amor é tão palpável que sufoca, no meio do dia, andando na rua, fazendo qualquer coisa corriqueiradessemeucotidiano tão ó-b-v-i-o. De repente o ar acaba, o coração aperta, e eu paro de respirar por um segundo. E daí todas as coisas que eu não entendo de repente se fazem tão óbvias, que a vida se torna tão palpável que chega a doer. O amor agora é palpável. E nada mais me interessa.

P.G

Ar

 

toque

o que

está

quieto

 

mexa

onde

menos

se

espera

 

seja

agora

somente

o que era

 

antes de tudo começar. Eu ainda acreditava…tudo era possível. Eu moraria em Barcelona, perto das Ramblas. Minha namorada cursaria Filosofia, e todo dia, antes de dormir, ela me beijava. Magra. Todos a olhavam. Mas ela, na cama, depois do sexo,  gostava era de olhar pro teto, e suspirava, como um sopro de flauta. Talvez estivesse sentindo. Alguma coisa boa, sem dúvida. Enquanto eu… só pensava. Em versos, no sentido de estar ali, e se não me envolveria demais com ela.

 

 

[CJ]

O sonho da forma

 

A realidade é um bolo

do qual as pessoas

tiram seus pedaços

 

de dinheiro

de poder

de amor

 

E com a faca do querer

os vão cortando

em diferentes tamanhos

 

sabores

jeitos

valores

 

E os vão comendo

com suas vontades

de comer adormecidas

 

vivas

cansadas

ou sei lá o quê

 

 

[CJ]

Minimal

As batidas sincopadas e (des)ritmadas
que chegam aos ouvidos,
marcam o compasso frenético
do surto coletivo.

Como em um grande ritual,
todos procuram sanar suas mazelas
expurgando de si mesmas
aquilo que as faz mais belas.

Ao menos é sabido
o preço que se paga
pela fuga do vazio.

Algumas notas de cinqüenta
e uma dose incerta
de neurônios envelhecidos.

DF

É sempre pra você.

Tentando montar todas aquelas coisas em um mosaico absurdo porque achava que se conseguisse montar (mesmo que na sua cabeça) os detalhes reunidos lado a lado, conseguiria lembrar e entender com clareza o curso que tomara a sua vida. E assim alinhou a lembrança da última viagem com os amigos, o ano novo do ano passado, a busca infindável e sem propósito do meio do ano, o período em que acreditou em pouca coisa e o estado presente do copo pela metade e do cigarro não fumado em cima do maço, esperando paciente para ser fumado com a sensação de alívio de quem acaba alguma coisa. A vida naquele atual momento tinha parado seu cotidiano eterno (contrariando o que ela acreditava, isso do tempo nunca parar pra dar alívio ao coração)

E com tudo absolutamente estático era necessário entender as coisas. Negava em páginas longas toda e qualquer racionalidade. Foi a primeira mentira que tentou consertar. Era dura e sempre pegava pesado com ela mesma, senão, no exato momento em que eu a vejo pela janela, ela estaria deitada no azulejo frio do chão da sala, fumando seu cigarro de alívio tentando profanar no meu ouvido seu punhado de frases sonsas e cínicas esperando que no espaço entre o meu silêncio e algum gole no copo eu dissesse para ela alguma coisa que não só fizesse sentido, mas que a fizesse levantar daquela cadeira dura onde seu mosaico de imagens pesava mais do que ela.

De repente, quando eu já levantava para apagar as luzes da sala e tentar ir dormir pela segunda vez ela aparece, de novo cínica, fumando seu cigarro aliviada, me aponta as marcas de lençol amassado na minha pele e me abraça, de novo sonsa, sussurrando no meu ouvido de um jeito risonho, quase infantil:

– É isso. Era por isso.

E naquele momento, pelo menos para ela, tudo fez sentido.

P.G