Quincaillerie

 

digerirei essa atmosfera

e, mais que isso,

geri-la-ei

girando

atento

em um ciclo interminável

de gente

de todos os tipos

cada um a seu modo

traduzindo o que é ser gente

um ator

um personagem

perdido nas páginas

de uma pétala.

 

 

[CJ]

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Tão Brasil


 

Danada menina que rebola

trazendo o sol com os cachos pra fora,

use seu instinto para sapiência

e conceda-me o que lhe peço com clemência.

 

 

Não quero ser rude, muito menos enrolado,

mas como todo esse papo namorado,

terei que jurar que não sou tarado

com os mesmos versos de amores passados.

 

 

Terei que ser justo com minha natureza viril

levando-te ao céu de estrelas mil

– tal como a bandeira tatuada em seu corpo

de minha pátria amada estampada no torso.

 

 

És minha adorada morena, não vou lhe enganar,

mas nesta terra tudo tem seu preço,

verdade que aprendemos no berço

e o meu preço será seu esfíncter dominar.

 

 

[pk]

Sinergia

Mais uma edição do Sinergia para a gente poder ler o que os amigos (e leitores, quem quiser participar é só falar) andam fazendo. O poeta da vez é o Carlos Andreas, que escreve no http://www.imperiocarletista.blogspot.com/ e é aluno de letras. Sem mais delongas, e para ouvir ao som de Tom…

Chansong II

 “I’ve never been in Paris for the summer

I’ve never drank a Scotch with this bouquet”


 

Nunca vendi cavalos nas feiras da Tartária

Ou me perdi nas formalidades dos mestrados

Nunca fundei dinastias sobre reis assassinados

Ou joguei comediantes bestas sobre as feras

 

Jamais encontrei Buda no menu dos restaurantes

Tampouco acendi lâmpadas na guerra da Coréia

Jamais corri assustado alvejado por manifestantes

Tampouco li Gilgamesh na língua da Caldéia

 

Não produzi chacinas ou dividi famílias e alianças

nem dirigi carros de embaixada com insígnias de estado

não enriqueci com poços de petróleo no Arkansas

 

 

nem engordei bezerros nas planícies do el dorado

Não fui cantora de bar ou empregada de alguns mouros

Apenas escrevo sonetos antes de entrar na arena dos touros

It’s only love

Porque eu fico mendigando sempre um pouco mais de amor, porque o ciso dói e o dia seguinte é cheio, porque eu não tenho mais medo porque tudo é calmo, e porque eu joguei fora um texto que eu escrevi contando do sonho, em que você me deixava porque não sabia lidar.Prefiro falar do meu mendigar carinho e do jeito gato de espreguiçar porque você mexe no meu cabelo. Tudo é melhor do que pensar que você ainda não comprou o pacote completo da minha megalomania pelo espaço na cama, e por conhecer o meu bairro todo (e o seu também,) e por enlouquecer de vez em quando (pra dentro de mim e aos berros no seu ouvido) e deixando qualquer tristeza de lado, escrever um texto bonito sem cheiro de cigarro, porque a vida dói mas é bonita, porque tudo me dói mas é bonito, porque eu me dei por completo, e no meio de todo o meu excesso e do amor que me sobra, falar da felicidade em seu estado mais bruto, físico, real, e falar sobre os dois pés fincados na terra pela primeira vez na vida, onde colocar tudo em risco acalma o sabotamento, e me coloca menininha, escrevendo sobre coisas que não cabem dentro de mim, pra ver se sobra espaço pra pensar em algo mais racional, ao invés de me guiar o dia todo, com esse tudo que não é palpável. 

Eu descobri que tudo é muito simples, e que pés na terra ou cabeça voando (Em Copacabana ou do outro lado do mundo) Eu estou sempre ao alcance das (suas) mãos. 

É simples assim…  

  http://www.youtube.com/watch?v=Dvr8DGuw0cw

PG

ask me

Conciliar a linguagem? Com o que? Com a própria arte? Comigo? Com qual de mim? Quantos sou? Intermináveis? E a coerência, existe? Ela importa? Existe fragmentação? Estaríamos brigando por definições do real? Existe persuasão? Existe autenticidade? Posicionar-se? Em cima de quem? Existe ciúme? O que ele ensina? Existe fama, sucesso? Existe superficialidade? Existe pequenez? Existe realização? Existe prazer? E o sublime, existe? Existe amor? E quem disse que o amor é grande? Quem disse que Deus existe? Existe Nietzsche?

[CJ]

O último tango

 

O último súbito

Espera-se grandioso.

No meu caso, lisonjeio-me

Se não for mentiroso.

 

 

 

Serei grato ao divino

Se em meu último suspiro

Permitir me confessar

Que cansei de tudo que vi:

 

 

 

Um eterno retorno

De mil falácias afins.

Menininhas melindrosas

Contando estórias sem fim.

 

 

 

Serei grato, meu Deus,

Se na hora do Adeus,

Escolher-me um dos seus:

 

 

 

Permitindo-me ser feliz em meu túmulo

Calando minha voz pro mundo.

 

 

 

[…]

“A noite – enorme, tudo dorme, menos teu nome.” (Paulo Leminski)

Parece que o mundo todo foi dormir, menos eu. E nesse estado de (des) graça eu posso acender quantos cigarros me forem necessários e me surpreender com o ladinho obscuro que só aparece depois de 2:00 AM. Lembro de tudo, de tudo, e essa lembrança é tão física que chega a ser cruel. Na madrugada nada me escapa e o silêncio do bairro que nunca dorme (mas parece estar em coma nessa noite) ensurdece meus ouvidos. Vejo tudo com uma clareza irônica, como sempre os objetos criam formas e ficam cínicos, nada é tão real quanto a falta de sono. Os livros espalhados pelo chão do quarto, as roupas jogadas em cima da cama, e eu viro espectro transparente que vagueia pela casa esfumaçada como se eu visse a vida de fora enquanto sou puro fantasma. Eu acho que estou desaparecendo, mas daí transformo meus cacos em palavras para ver se volto ao real. Enquanto o chá esfria em cima da mesa eu tento soprar junto da fumaça as raspas e restos do passado que resolveu bater na porta nesses últimos dias, transformando em realidade tudo o que já havia sido deixado para trás. Tudo o que eu busco no silêncio é companhia e calma, de toda confusão que é a minha vida eu só busco respostas e acontecimentos. Quero tudo tão tato, que as vezes não dou conta. Quero tanto afastar o medo, que me torno a única pessoa acordada na cidade. Quero tanto ser feliz que dói… Mesmo que eu precise ver o sol aparecer pela minha janela mais uma vez. Quando se vence a insônia (mesmo quando se é vencida por ela), o dia acalma meus passos cansados de rodear pela sala e me traz pelo menos, a possibilidade de tentar tudo de novo. 

P.G

De serpentes e escuridões

Há, dentro de nós, uma escuridão tamanha que chega a ser incomensurável. Digo escuridão, pois é isso que sentimos, um misto de melancolia, de desespero, de tensão, de medo, de tesão, de ganância, de egoísmo, etc. Beleza nenhuma é capaz de obliterar esse instinto destrutivo, poema nenhum é capaz de verbalizar essa energia, melodia alguma é capaz de amansar esse leão. Sentamos sozinhos no escuro e abraçamos nossos joelhos em silêncio, buscando qualquer paz que talvez possa direcionar nossos olhos em direção a uma luz, fugaz que seja. De nada adianta chorar, pedir perdão, encher a cara. De nada adianta. Vivemos tal como encantadores de serpentes, escamoteando o ataque iminente, às vezes retirando nossas próprias presas, mas o veneno persiste lá, pronto para a inoculação. Fugimos de nossos anseios mais primitivos, ficamos com medo dessa força escura e densa que pode, a qualquer hora, tomar-nos de assalto e pôr tudo ao chão. De súbito diversas memórias nos assolam, lembranças de épocas passadas, das primeiras traições, das primeiras indelicadezas, dos primeiros desesperos, dos primeiros traumas. Tentamos aprender com os erros, com as vitórias, com as derrotas, só que a carne nos enjaula, a mente nos engana. Quando esperamos ter superado as dificuldades, outros óbices surgem para nos levar à lona. Dizem que essa é a beleza das coisas, porém cremos que nossos olhos talvez não estejam, ainda, preparados para enxergá-la. Alguns se entregam à escuridão, tornando-se àquilo que mais odeiam. Outros fogem de si mesmos, admitindo toda e qualquer prostituição de sentimentos. Encaremos a serpente, olhemos dentro de seus olhos, analisemos suas presas, para que talvez um dia possamos aprender devidamente a encantá-la.

DF

Pequeno veneno


 
Há uma verdade não dita na miséria brasileira. O pobre, uma vez rico, fará de tudo para não voltar à pobreza. Muitas árvores seriam cortadas, se abríssemos para discussão se é de alma ou de caráter, de dinheiro ou de bondade ou qualquer outro conceito afim. Tome-mos como uma verdade, é mais simples assim, no Brasil de hoje, a memória do povo, nunca busca até o fim.

 

Imagine meu Deus, quão perigoso seria, se a política e a revelia, um dia tirasse do berço da fome, um moleque sem nome, e lhe desse direitos e garantias. Empolgado, logo almejaria a boa alfaiataria (dos deputados da capital), não lhe seria extenso o tempo, antes de começar a acreditar que poderia fazer parte da democracia.

 

Alcançaria, sem dúvida, com a obstinação de quem não tem um dedo. Mas, coitado, como nunca fora afeito a emprego, não estranhará os arregos, de “todos os amigos do poder”, pela emendinha no papelzinho, sem pudor ou tutor, que mal conhece o funcionamento a rigor: o Orçamento bancado pelo eleitor.

 

Cuidado Companheiro, o poder cobra o seu preço: e é alto. Nestes casos, o fígado sempre produz um relatório com maior respaldo. Leve-me, Deus, de sobressalto, se um dia, lá dentro, onde o passado, a miséria e a fome, têm um só nome, o mais animal veneno Ele conseguir destilar, e com o futuro se excitar. Não duvide, este será o prefácio da história de um povo, cujo governante para solo gozo, criará um triste verbete na memória de todos, definindo a maldição do continuísmo, que de tempos em tempos, insisti em retornar.

[P.]

A construção e desconstrução do pegar

 

(o germe da teoria das chaves)

 

Sexo. Poder. Religiões e guerras se justificaram por isso. Muito pouco do Homem foge a isso. Nestas circunstâncias, não poderia me calar. A idéia que apresentarei é simples, formada em composto, sem grande retórica ou argumentos complexos. Para compreendê-la, necessita-se entender apenas uma premissa: Tem que tê-la vivido.

 

 

O objeto da análise é a conquista, moneratizada em nosso tempo, atomiza-se no verbo pegar. Quanta indiferença! Quanta contradição! Resultado programado pelo Homem, que aumentou a produção, extinguindo o tesão. Homem, máquina, Homem-máquina. Mulher, objeto, Mulher-objeto. Hoje não há diferença. Se pego um copo, objeto alcançável, pego uma mulher. Triste fim de tanta beleza, lamentável. Reflexo de um mundo descartável.

 

 

Nesta década sem ideologias, a conquista se resumirá em projetar: nas expectativas da mulher caçada, a imagem do homem que Ela quer ver. A construção de um Eu esperado, bem dotado, formatado pelas preferências que Ela deixa transparecer. Uma vez conquistada, dentro da própria mulher, inicia-se a desconstrução deste Eu elaborado, seja cuidadoso. Reconstruindo-se, mostre-se aos poucos: como um bem estimado de alto valor agregado. Um verdadeiro ouro: seu Eu originário! Ela, perdida em seus contrários, eliminará seus páreos. Com corpo e alma dominados, agenda com seu nome anotado, agora pode-se apresentar alado. Pouco importa; e ao seu comando que Ela quer ouvir agora.

[P.]