A herança

De todos erros que cometi
Os únicos de que não me vali
Foi ter bebido alegria
E chorado pelos amores que tive.

Não há a morte mais miserável
Do que o infarto do coração solitário.
Provocado de várias maneiras,
Sempre nas páginas do obituário.

Não há bala de revólver
(levando-me ao céu)
Pelo céu da boca
Que uma nova amada não cure e costure.

Afogaste meus planos,
Atrasaste meu tempo,
Queimei todas as páginas que escrevi
Herda-te somente esta carta e a mensagem: parti.
[pk]

Anúncios

Só amanhã de manhã

Hoje me acordaram, o sol senegalês do verão carioca, a vizinha de baixo com a irmã, a síndica E a mãe (!!) para reclamar da infiltração, dois amigos que esqueceram que o aniversário não é hoje, mas amanha, Roberto Carlos na vizinha da frente em uma parte da vida não tão legal quanto em 70 e poucos, e a ansiedade do ano que vai embora, da idade nova, do inferno astral que se despede, da viagem que está chegando, do amor que deixo em espera.
Este ano desisti de comprar isqueiros que sempre perco e resoluções de ano novo que nunca cumpro. Não parei de fumar, não fiz um esporte, não fiquei mais calma, mais serena, mais rica, mas troco tudo por ter estado mais feliz. Esse ano, entre complicações burocráticas e emocionais, a mamãe estava longe e o meu pai já não resolve, os dias foram especiais e em alguns momentos no cheque especial, como sempre me doeram as coisas, e eu esperneei por cada uma delas. Exerci o desapego das pessoas e de todo o resto, joguei fora papéis, pessoas e antigos hábitos, coloquei o coração no rehab e consegui no fim de tudo, (quando parei de falar sobre isso e resolvi sentir aos poucos, pela primeira vez) entender que calma e serenidade são conseqüências do dormir em paz sabendo em quem pensar de manha.
O pouco que mudou mudou a vida inteira, e me despeço dos 21 e de 2007 uma pessoa um pouco melhor.
Então ta tudo certo…

Ps: Aos queridos leitores dos 4, desejo que 2008 seja melhor que 2007 e peço desculpas pela ausência em janeiro, pois estarei em Israel e escrever vai ficar difícil (espero pelo menos que a sanidade mental fique ok com o fato.

Mas pelo menos o que não vai faltar são textos pós viagem…
Todo meu amor,
PG

um dia tava na praia conversando no meio de dois amigos quando apontei pro sol e falei: tudo foi feito por ele, é a expressão de Deus mais bonita que podemos ver da terra, enquanto o que tava do meu lado esquerdo pensou: caralho, a incidência dos raios ultravioleta na atmosfera pode me causar um câncer de pele, ao passo que o que tava do meu lado direito sussurrou: ainda ganharei dinheiro fornecendo energia solar pro Estado

passou uma menina magrinha que chamou minha atenção, ao lado de uma gostosa com uma tatuagem abstrata nas costas, os outros dois nada disso repararam

e nem me criticaram, não se importaram com nossas diferenças de ser e agir no mundo, pelo contrário, respeitaram e comemoraram esse fato, estávamos juntos

nesse momento lembramos de alguns conhecidos nossos que sentem a necessidade de apontar e ressaltar as supostas falhas e pequenezas alheias, num esforço de diminuição de tudo que os rodeia para quem sabe assim se mostrarem melhores

só que mais tarde um de nós titubeou, saímos para uma noite razoável, eu abstraia o ambiente e me contentava em ouvir Os Mutantes, ele não se sentia bem consigo e caiu na armadilha de se justificar pelo meio mais fácil: esta noite está uma merda, isso mais parece dança do acasalamento, pegar mulher não é o sentido último da vida, até porque essas mulheres são ridículas

desdenhou de todos os tipos humanos e foi pra casa escrever, escreveu um poema até bonito, postou no seu blog, mas no dia seguinte teve uma surpresa quando leu um comentário que dizia: que coisa mais fresca é a poesia, seja mais viril

isso o revoltou e ele nos ligou para sairmos, saímos

ele bebeu whisky pra se sentir homem, um homem de instintos e de força, estava solto, dançou e bailou com todas as suas convicções reproduzindo movimentos de tango que aprendera na Argentina, quando a última e mais doce lhe falou ao ouvido: não se perca nos labirintos do exercício do poder

 

mas já estava tonto de tanto rodar por ali, não encontrava saída, vomitou tudo o que havia bebido, alguns que passavam pela calçada riram da sua cara e ele pensou: puta que pariu…. aposto que todos eles já passaram mal também, eu teria oferecido uma água

 

foi pra casa, ligou o ventilador e dormiu, sonhou com uma reunião, realizada na Suíça, entre vinte pessoas, cada um representando a sua respectiva língua, sendo que a condição para participar dessa reunião era não falar mais nenhuma língua além da sua, ou seja, todos apenas riam, riam muito, não se sabe de que

 

[CJ]

Na mesa, enquanto isso.

É…ela me chamou de gentil. E aí? E aí que eu confirmei ora. Porra, mas porque isso? E como não confirmar a verdade?! Sou um cara educado e gentil sim senhor. Ah mas que porra, e isso era o que você queria ouvir? Claro que não, preferia ouvir que eu era um ás no volante, ou que eu era um amante incondicional, ou que eu era um príncipe abastado. É, mas temos que nos contentar com esses pequenos elogios. Ah, será mesmo? Eu acho que não, porque na verdade eu sei ser o que eu quero na hora apropriada. É mesmo? É pô, eu sei ser educado e gentil no momento certo, bem como sei ser um escroto babacão quando me vem na telha. Ora, isso é engraçado. De fato, eu consigo emular diversas personalidades quando me apetece. E isso é freqüente? Ah, de vez em quando eu gosto de atuar. E essa atuação? Não lhe faz mal? E o que não faz mal nessa vida? Já nascemos morrendo, meu caro, não tenha dúvida disso, então se eu tentar ser uma pessoa melhor do que eu sou atualmente, qual é o problema disso? Ah, sei lá, talvez a autenticidade seja algo fundamental. Meu amigo, o que é fundamental nessa vida é dinheiro e um bom advogado. É, nesse aspecto eu tenho que concordar contigo. Pois é, não se iluda. Dinheiro e um advogado. Mas que merda, não te deixa triste pensar nestes termos? Ora, se isso não fosse a verdade ficaria triste, mas sei na pele o quanto isso faz sentido. É mesmo? É, poxa, toda hora cara. Não vá me dizer que ninguém nunca lhe tentou passar a perna? Poxa, sempre rola. Então, é por aí. No entanto, com as mulheres é diferente, porque elas nos passam a perna e nós consentimos. Jura mesmo? Presta atenção no que te passa ao redor, rapaz. Você anda muito alienado. É mesmo, eu concordo contigo. Pois então, a vida é isso, desgosto e riqueza ao mesmo tempo e, por outro lado, felicidade e ignorância. Prefiro ser esclarecido à ignorante. Isso você diz por que é um puta ignorante. Ah, fala sério, nem sou, tenho estudo e tudo o mais. Como se isso bastasse meu filho, tem que aprender muito ainda. E o que e como eu tenho que aprender? Aprender que tudo vale a pena se a alma não é pequena e que isso foi escrito pelo Pessoa. E de que me serve isso? Para dizer às menininhas metidas a intelectuais. Opa, gostei dessa. Pois é cara, solta uma dessa e você vai cair dentro dumas maconheiras da PUC com consciência social. Nossa, só de ouvir isso já fico com água na boca. Pois fique mesmo, são as melhores…

DF

“Toda mulher gosta de apanhar. Todas não, só as normais” Nelson Rodrigues

“O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração”

 

Ele aparece quando dá. Quando dá é uma vez por semana e eu dou. Dou carinho, afeto, cafuné, o jantar, o amor. Ele me ignora na rua porque ninguém pode perceber que é ele quem tira meu chão. Dia sim dia não eu acordo e amaldiçôo a outra, e as vezes confesso, que ouço no rádio aquela estação das simpatias, e faço alguma mandinga ou outra em troca de um pouco de amor.

 

De vez em quando ele aparece de porre, e eu aceito o bafo de cerveja e a falta de cuidado. Me ama com certa rapidez se veste e fala dos filhos para criar, mas basta para me deixar feliz enquanto eu trabalho.

 

Uma vez ele me levou para sair e me tirou de lá as pressas. Me bateu no rosto e eu entendi que alguém devia ter me visto. Eu causo problemas, e ele no fundo quer é me assumir mas não pode.

Diz que a mulher é doente da cabeça, e que está preso a ela. Eu as vezes peço em silencio para ela melhorar e ver se ele fica livre. Foi meu primeiro homem, e antes de dormir eu gosto de imaginar nós nos casando. A lua de mel seria na Paraíba mesmo. Eu pediria pra ele me levar lá, porque assim conheceria minha família e quem sabe a gente não acabava ficando por lá mesmo. Eu conheço ainda aquele moço que é síndico do prédio que eu trabalhei quando era menina e as vezes ele fica lá de porteiro. Há muito tempo ele não trabalha, diz que aqui no Rio ninguém dá chance, oportunidade e por isso, ele fica triste e acaba bebendo. Peço muito a Deus por ele, porque ele é bom sabe… No fundo ele é bom. Ele só não tem oportunidade…

P.G