“Dream on a rainy day”

Lá fora chove.

 

Pela janela te vejo,

fria,

como um bloco de gelo.

 

Quando, branca, chegas

à porta,

recebo-te com um beijo.

 

Pra beber? Não estás pronta.

Ainda falta

derreter-te em minha cama.

  

[CJ]

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All Is Full Of Love

( E quando eu percebi que ir embora era fisicamente impossível, procurei meu lugar pelo quarto, e aceitei o que viria depois) 

Você não merece. Não merece meu jeito, meu gosto, meu tato, meu amor, minha falação desesperada, meu espernear pela casa, meus bicos, minhas sobrancelhas franzidas por pouca coisa (por quase nada) e nem meus passos barulhentos pelo chão da sua casa. Não merece que eu atrapalhe seus vizinhos, sua vida, e suas coisas e nem minha quietude voluntária, meu jeito próprio de respeitar seus barulhentos silêncios. Você não merece meus fins de semana, meus dias normais, minhas horas, meus minutos gastos, minha maquiagem barata que não esconde o quanto eu sorrio pra você (de olheira a olheira). Você não merece, mas eu te amo como um bezerro. Não merece o quanto me fez uma pessoa melhor, não merece as mudanças na minha vida, os livros tirados do chão na esperança de que de repente você chegue (quando sou sempre eu que vou) e esse meu ir sempre assim tão de bom grado, tão feliz, tão plena, tão completamente sua e não merece, esse ter me tornado tão pouco do resto das coisas.

Mas aí você vira para o lado, e reclama do mau tempo, do ar condicionado, do trânsito, do Rio, da vida e de mim, e depois abre seus braços em que cabem o mundo e eu fico tão pequena, que você merece tudo.

E passa a merecer o tanto que eu tinha guardado e que ninguém nunca via.

E eu então mereço seu sorriso, seus braços, seu jeito, seu silêncio, suas reclamações e (seu adorável) mau humor matinal e seu conceito de tempo, de vida, de amor, e por causa disso tudo, eu não quero mais amor nenhum.

Não sei se posso chamar disso e mesmo que a gente, ou isso que eu sinto não tenha nome, eu prefiro.

É tão novo, tão bom, tão pleno e é seu.

O amor se fez possível, e que chegue.

Será merecido. E bem vindo.

P.G

Memórias d’uma puta velha

Num buteco sujo
fedendo a álcool e imundo
vejo o dia nascer e crescer
sentindo o mundo girar.

Dedilho as horas
contando o tempo e histórias
de glórias de outrora
que vi, e voltei pra contar.

Esqueço-me como problema
e de uma auto-estima pequena
faço um velho pato feio
virar galo e cacarejar.

Neste chiqueiro com letreiro
sento ao lado duma princesa
que de longe – que beleza!
Mas perto, quanta tristeza

Bêbada, só sabia balbuciar:
me dá, me dá, me dá!
Um trocadinho meu amor
para eu poder cheirar.

pk.

Xaveco

Olha, querida, eu sei por que você já me disse. Respeito o seu medo de se envolver, até porque eu também sofro desse mesmo mal. Veja bem. Só que hoje, não sei o que me passa. Sabe… eu venho pensando e cheguei à conclusão de que isso é errado. Porque na verdade é um aborto… mata-se algo que ainda nem tomou forma direito. Mesmo que tudo dê errado, eu gostaria de ao menos sentir o teu cheiro, sentir a sua textura e te encher de volúpia. Porque é isso o que eu posso, ao menos, te garantir. Tentarei fazer a coisa da melhor forma possível e a partir desse momento poderemos conversar sobre o porvir. Não há como prevermos o futuro então porque não viver o momento, entregar-se ao menos uma vez, baixar a guarda, relegar o escudo, as conveniências, as instituições, o estabelecido. Fuja ao menos por uma noite que seja! Entrega-te plena, viva, não contida, porque o cercear é tão presente que já não mais nos sentimos livres. Prometo ter cuidado… serei seu príncipe encantado, montado em um alazão dourado, a fustigar a linha inimiga. Deixa eu tocar sua pele, emaranhar-me em teus cabelos, perqüirir tua alma. Apenas hoje, só agora, assim… dessa forma.

 

DF

Eu-hermético

 

 

Não pretendo que ninguém entenda.

Mas farei aqui minhas oferendas

Às loucas profundezas do meu ser.

 

Que é pobre, como as mulheres escravas

Caminhando acorrentadas no deserto,

Onde sem água, comida ou afeto

 

Deixam escorrer um feto

Por entre as pernas

Pois o corpo não pode mais suportar.

 

Que é bêbado, de vertigens pós-modernas

Cujas ondas eu enfrento e carrego

No comando do meu próprio barco.

 

Afinal, sem torpor seria intransponível

Atravessar tantos desejos malditos

Saindo da boca das sereias de Ossanha.

 

Que é duplo, no sim e no não dos sentidos

Da vontade de falar mas só praticar o silêncio

Poupando algumas verdades, àqueles que não querem ver.

 

Como um peixe que aprecia a Rede

Balançando na maré de otimismo e medo

Sempre a mesma história, com o mesmo enredo.

 

Por isso mesmo dormindo estou acordado

Lutando no exército de mim mesmo

Que batalha nas fronteiras do horizonte

 

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Derrubando estereótipos

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Buscando a independência dos ideais

Sob o comando de dois generais:

Eu e meu Eu-hermético.

 

Paco Kasper