A última página do diário

Como todos, quando jovens, sonhei dominar o mundo com as minhas palavras. Sonhei, por noites e dias, num labor silêncio e solitário, encontrar as palavras, que tocariam os corações, que, entre pontos e vírgulas, alimentaria o fogo das memórias, mais prazerosas, da experiência dos meus leitores.

Falhei. Fui vencido por mim. Chego ao fim desta última página, deste diário embolorado, sem as respostas que almejei encontrar. Minhas idéias, meus gritos, ecoaram pelo tempo mas em nada reverberaram. Acabaram como a gota da chuva, transformada em água, num fundo de lago. Não deixará lembrança.

Depois do amor, só a inocência me fez cego tanto tempo. Quantas tentativas! Como poderia eu, que só aprendi a ler depois de todos os outros, que só comecei a escrever, quando todos já rimavam, e que, de sempre em sempre tropeçava num P e num B, num M e num N, e em todos os acentos e outros labirintos deste vernáculo secular. Como poderia eu, querer ser poeta? Cronista? Escritor?

Não dava. Mas tentei. Tentei me mostrar por inteiro, escondido em versos fagueiros, tão brasileiros! Não consegui. Desiludi. Junto com essas últimas palavras, deixo minha espada e escudo: a caneta e o papel.

Pagarei a fiança pelo meu empenho, aprissionarei minha alma num engenho, e sendo só corpo, levarei a vida, assinando papéis, sempre em busca dos mil réis. Movendo a engrenagem do mundo, escravo de minhas ambições, aceitarei minha condição, de pobre cidadão, que acorda, dorme e vive, só pensando em como conseguir o próximo pão.

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2008,

p.s.p.k.

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“She’s lost control again”

… e mesmo desse jeito, eu aceitei a forma com que veio porque quando em mim fez sua morada, chegou tirando meu ar e jogando todas as coisas para cima. É indomável, insustentável, incontrolável e talvez por isso me domine de uma triste forma tão passiva. Abri meus braços e minhas pernas, e de olhos fechados deixei com que ele invadisse minha vida por completo sem procurar saber quem antes tinha vivido aqui. Diz que gosta de mim e vez ou outra esfrega a barba no meu pescoço e na alternância de alguns meses me escreve alguma coisa bonita para que eu não perca por completo a fé no (meu) amor. Quando chegou me prendeu pelos silêncios, pelo vazio, pela sensação de meio que não me deixa (não me deixou) saber do que se esconde, o porquê do medo de que um dia eu invada sua vida e sua calma, e de mim protege sua casa, sua cama, seus amigos, seus escritos, sua arte que derrama sentimento depois de tanto guardado com medo de se fazer humano. Tem medo que um dia alguém descubra que sente falta e assim xingue em voz alta suas insatisfações e grite no meu ouvido que eu não valho nada, e que tenho amigos demais, e que saio demais, e que escrevo de menos e que não tenho a mínima idéia do que eu quero, e num lapso de proteção absoluta me joga pra fora da cama e me olha enviesado, e me protege de suas manhãs, de suas manhas, de sua arte, de sua vida, me amando assim na beira, na superfície, até aonde meus olhos alcançam, porque o que tem dentro baby, não é para o meu bico.

Diz que quer dormir comigo (quererá ainda, querido?) por protocolo e se desfaz das minhas coisas de manhãzinha. Cobra calma quando me visto, pede um minuto com a cara mais cínica do mundo (quererá ainda, querido?) quer que eu acredite que ele consegue viver na presença de mais alguém. E assim eu vou embora, óculos escuros, andando na contramão, pensando que se eu me afasto de repente ele sente falta do barulho, dos pés cansados que batem forte no piso da sala, e entenda num lapso que ninguém, absolutamente ninguém consegue ser feliz sozinho.

Nem você.

“But she expressed herself in many different ways until
she lost control again”

http://www.youtube.com/watch?v=QVc29bYIvCM

 

 

 

Sinergia

Fortalecendo uma idéia muito cara ao dequatro, a de abrir nosso espaço para outros novos escritores, apresentamos a terceira edição do Sinergia, com Ana Salek, a quem agradecemos pela disponibilidade e pelas novas cores que nos traz. Ana tem 21 anos, estuda Moda na Candido Mendes e Economia na Puc, e o hibridismo presente nessas escolhas mostra-se claro também em sua escrita. Enjoy!

 

Voz do Vinho

 

Eu venho vindo.

Eu vinho.

Eu vinha, em artérias latentes, sombria por entre as vinhas.

Eu juro, eu vinha.

Velada, veloz, veludo, tudo mudo. Vim de longe, vide bula, vim de um eco surdo.

 

Vozes, vermelhas do ventríloquo.  Ventrículo do meu sangue agudo.

 

Por vez que entorna, atroz ,mil. Um milhão.

 Não gosto de sangue miúdo.

 

Garrafa, moringa, barril, tufão.

 

E venho vindo. De taça, de copo, vou de vinho.

 

E faço em meu leito um furto. De vinhas vertiginosas, revigorando no meu ventre

 

agudo.

 

Ai de tí, Copacabana.

“Ai de tí, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.”
 
 
Falta um mês para que eu e ele não estejamos mais juntos. Prometi que não vou chorar. Já me acusam de dramas exacerbados em tantos fatores da minha vida, que ao deixá-lo, decidi não derramar uma lágrimazinha sequer, prometi fechar a porta e deixar dentro dele todas as histórias que guardei em suas diversas gavetas e tudo de mim que deixo pelos cantos desse apartamento. Copacabana foi o início da vida, a descoberta das coisas, dos submundos da Siqueira campos, dos vizinhos de todos os prédios, de milhares de textos, amigos, idas e voltas ao fundo poço, de andanças desesperadas pela madrugada na orla, pelo sol que nascia no fim da rua prometendo dias melhores, por seus moradores solitários, suas famílias centenárias, por suas putas e loucos (os que andam livremente pelas ruas, até aqueles que ainda não se assumem) e cada parte do bairro construiu em mim sensações etéreas, eternas, construiu a mim, e eu sou grata a Copa como se ela fosse mãe, porque fundo ela foi. Agora, como velha senhora que sou, ando apegada as paredes e o cheiro do meu velho apartamento. Falta um mês para que não estejamos mais juntos, e é provável que como tudo na minha vida, eu crie uma certa resistência com o novo. Fico com medo de não ama-lo e não criar ali o afeto que tenho por essas paredes que transbordam memória. Mas prometo que não vou chorar, o amor que passa é o que ensina, e o que prepara para o amor que chega, e eu tão apegada a tudo, perco o medo de enfrentar as paredes ainda brancas e o cheiro de novo do que me espera. Pelo contrário, comprarei flores e deixarei a porta aberta, para que na nova vida o amor chegue todos os dias e faça por lá a sua morada.