Sinergia

Em seguimento aos relacionamentos literários promovidos aqui na seção Sinergia, temos o prazer de postar um pequeno poema do querido amigo Fabrício K, nosso viajado amigo, com muito carinho.

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Num canto de pouca e densa luz
embebido em cansaço, prazer e semitons
em atmosfera envolvente, que suga e seduz,
uma garota de olhares, lábios e sons;

com a feição de um anjo sedento
que se entrega à luxúria da Terra
com sua música viva, seu alimento,
e sua guitarra, uma serpente que berra.

Me envolve em pele sua presença ardente
complexa, intensa, fugaz sem cortejos
percorre o espírito em rumo à mente
me incorpora e domina com fogo de beijos

ao deslize do tempo congelado em memória
preenche os sentidos de desejo e fome
levanta um suspiro de saciedade e glória
depois se veste de menina. E some.

– 9/5 1:21

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“Só porque foi e voou, e hoje já é outro dia”

Quando cheguei vi que o tempo comeu o jardim, a casa, o quarto que eu habitava e corroia aos poucos os que ainda habitavam nela. Mas eu não queria pensar em tristeza enquanto sentada comportada, eu esperava por fim, o que ele faria comigo. O tempo ia colocando prazo de validade nas coisas e nas pessoas enquanto colocava debaixo da minha porta toda a responsabilidade de fim do mês. O tempo mudou aos poucos as fotos dos porta retratos, substituiu pessoas, me fez despedir de algumas outras e me deu nos momentos em que eu menos esperava (como uma boa garota) outras tão boas, que eu tive que (como uma boa garota) pedir que ele deixasse assim, quieto.

O tempo tirou um pouco a ânsia das coisas e a minha vontade de abraçar o mundo, que muitas vezes era maior que o próprio tempo, mas me mostrou a possibilidade do silêncio, da quietude, da sobrevivência sozinha no apartamento grande e me fez querer uma pessoa só andando por ele, além de mim, e ao meu lado.

O tempo passou varrendo a poeira da minha vida antiga, varreu o medo de me sentir inteira, tirou a saudade de me sentir metade. O tempo construiu aos poucos a vontade de fechar os olhos e esperar de braços abertos (sem um pingo de medo) o que por fim, ele fará comigo.

Saudade

– Do que mais você sente falta?

Ela me perguntou do que eu mais sentia falta com aquela cara mais lavada do mundo. A mesma expressão da face, simples e lúcida, porém seus olhos a traiam. Seus olhos diziam que a pergunta era muito séria, sua boca risonha apenas falseava a necessidade voraz de saber àquilo que seu coração tanto desejava. O olhar me fez suar frio, fiquei tenso, ajeitei-me na cadeira, busquei o isqueiro com a mão e pousei meu olhar no vazio por um tempo. Eternos segundos aqueles. O quê eu deveria responder, meu deus? Sabia que isso era importante, que esse era um momento de decisão. Poderia dizer que do que eu mais sentia falta era das longas conversas horas a fio, sobre tudo e nada, sobre o passado, o presente e quiçá o futuro, ainda não sabíamos. Poderia dizer que eram os porres, homéricos e sinceros, ou então o entorpecer junto a ela, chapados nos esquentando no frio. Poderia muito bem dizer que eram os contatos íntimos, o seu toque, o seu ardor, seu colo e umbigo, incontáveis horas afastados de tudo e todos, juntos espiando o infinito de nossas sensações, proporcionando-nos o prazer da troca. Poderia dizer que era sua companhia, a segurança que ela me proporcionava, sua mão na minha a caminhar com rumo incerto pelas vias sinuosas de cidades bárbaras. Poderia, ainda, dizer que era seu sorriso fácil, que iluminava seu semblante alvo, tão claro. Poderia dizer muita coisa, é verdade, mas a pergunta não comportava tudo e eu deveria escolher, pois bem. Finalmente, confuso que só, disse que do que eu mais sentia falta era acordar ao seu lado, antes dela é claro, para poder contemplá-la ali, plácida e ainda inconsciente, e observar sua beleza pura, sem maquiagens ou falsidades, sua face mais sincera, seu Eu. E o disse assim, com simplicidade, pois era a mais sincera das verdades desse mundo. Após essa resposta, ela sorriu de canto de boca e, por sua vez, estendeu sua mão ao isqueiro e virou seu olhar para o infinito.

DF

since 1900

 

a cidade, suas ruas e elevados

níveis de concentração

de pessoas

distraídas,

com suas caretas, sempre feias,

seus suores, óleos,

o tempo quente,

seus moleques carentes,

pivetes, bandidos,

me roubando o ânimo,

a carteira, a meia, o carro,

a buzina, os barulhos todos,

as obras, os apitos,

as portas batendo,

pelo ouvido entrando a raiva,

e minha paz, minhas forças,

se esgotando rapidamente

como a suja água da chuva

corre pro esgoto,

como corremos

contra o relógio,

contra o desgosto.

 

 

[CJ]

Quarteto Romântico

Eu buscarei, na minha gaveta de expressões, a que seja mais sincera pra você, e assim te mostrarei minhas razões. Se você precisar, ou se somente quiser, por puro capricho, te ponho mesa e talher

antes de te mandar tomar no cú, e ir comer uma puta da Avenida Atlântica.

 

[CJ]

“Tenho ciúme desse cigarro que você fuma tão displicentemente” , e do mundo que te cerca e eu não sei, e das coisas que acontecem e que eu não vejo, e de tanta gente ordinária que leva uma vida normal, e eu, que passei tanto tempo odiando o cotidiano, sinto falta das coisas mais triviais e de saber com hora marcada tudo o que vai acontecer. Tenho ciúme da calma e do cômodo, de todos aqueles que levam uma vida sem muitos acontecimentos e em que as pessoas são a grande coisa. Tenho ciúme daqueles que passam e não sentem nada, que já não se magoam com as coisas erradas, com as contas, com a falta de grana, de amor, de viagens, de nada. Morro de inveja daqueles que se sentam e observam o tempo passar levando tudo, e dos que não choram querendo tudo de volta. Eu queria ser pacífica ao invés de passiva, e queria muito não saber colocar toda a minha dor em formato de letra, porque sentimento quando vira palavra escrita vira documento, apontando pro mundo inteiro aonde dói. Eu queria saber das coisas com antecedência, e ter idéia de onde pisar, e postergar alguns medos pro futuro, onde eu realmente saiba lidar com as coisas. Eu queria sentir um terço das coisas, e viver metade, me dar aos poucos, ter menos ódio e ao mesmo tempo mais fé no amor, queria que as pessoas me passassem como se não existissem, pois assim a vida me viria de forma menos física, e de forma menos física, eu teria mais calma nos dias. Eu queria saber dizer aonde machuca, aonde incomoda, gritar no momento exato da raiva ao invés de transformar a raiva em letra, e queria dizer “eu te amo, mas não consigo” , e queria ser amada com o corpo todo, e queria que fosse falado ao pé do ouvido e demonstrado todos os dias, eu queria que o amor se esgotasse mas que antes se mostrasse para mim me provando que ele existe, eu queria ter menos ânsia, menos medo, menos dúvida, menos sentimento, menos dele guardado em cada dobra do meu corpo. Eu queria que o mundo parasse pra consertar o que está errado, queria te abrir os olhos e abrir meus braços, queria que a vida me passasse blaseé, mas eu sinto todas as coisas.
Eu queria te dizer que sinto tudo.
Sinto muito.

P.G