Should I Stay Or Should I Go

Eu tento, claro que eu tento, me enfiar no vestido novo, espremer os dedos num salto alto, perfumar o corpo todo, ficar bonita, parecer saudável, e ir pra qualquer lugar onde meus amigos queiram que eu vá. Claro que eu tento pegar uma bebida e olhar em volta e ver se me apaixono perdidamente por alguém nesse lugar acinzentado que fede a cigarro. “You do it to yourself, you do, that´s what really hurts”  começa a tocar e eu acho irônico, mas ainda assim eu continuo na pista, sofrendo de olhinho fechado e bracinho pra cima, meio show do Bon Jovi, porque a próxima música é profética também. “It hurts to say, but I want you to stay, sometimes, sometimes” Tudo bem, respira fundo e pega outra gim tônica. “ See, alone we stand, together we fall apart
Yeah, I think I’ll be alright”  E aí alguém se aproxima.

          Qual é o seu nome?!

          Ahm?

“I’m working so I won’t have to try so hard”

          Seu nome!

E aí é quantos anos você tem, o que faz da vida, e eu com preguiça de dizer quem eu sou se eu mesma mal sei. Eu não sei mais. Ao mesmo tempo ele parece rir da minha cara. Puto por eu não estar dando papo, como se dissesse que eu também não tinha ninguém ali.

Ta certo sugar, mas eu vou sobreviver, penso

Tables, they turn sometimes”

Strokes ainda, ainda de bracinho pra cima, alguém derrama minha gim tônica, eu resolvo ir embora, numa núvem de fumaça, como personagem de desenho animado, para que os mesmos amigos, a quem eu venho acatado, não me proibam de ir embora

“Oh, someday…”

Por trás da maquiagem de menininha ainda existe um buraco que não está sanado.

Tiro os saltos no taxi. Da próxima vez, talvez…

P.G

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Noite

 

Sair dos limites

do meu corpo,

 

entrar no escuro

do seu sonho,

 

tatear sua parede

de memórias

 

e pisar nos cacos

dos seus desejos.

 

Acender uma luz

e lá me encontrar

 

                                 sozinho,

                          inconsciente

                     de que te tenho.

 

[CJ]

A incrível história de … e Pedro

– Você não tem o texto… Senta aqui.

E eu sentei.

Ele concorda com tudo, ele fala! Eu me alívio. Aliás, ele parece estar sempre na eminência de falar alguma coisa. Ele participa e eu fico muda, dura, mesmo querendo falar alguma coisa para que ele me ache esperta, eu morro de medo de falar alguma merda. Eu quero dizer pra ele: “Ei, eu publiquei um livro!” e soltar milhares de referências vagas e coisas (poucas) que eu me orgulho de ter feito na vida. Eu estava quase contando que morei na Finlândia quando…

– Qual é seu nome?

– … E o seu?

– Pedro.

Silêncio.

“Eu sempre pensei em colocar o nome do meu filho de Pedro.

Pedro, Pedro, Pedro, Pedra.

É sonoro, bonito. Vamos pra minha casa agora e fazer um filho, Pedro? Vamos fazer um filho “Pedro” ?

Penso se Pedro gostaria de mim no cinema, com os amigos dele, com meu vestido novo, em cima dele…

A aula acabou. Pedro vai embora sem olhar pra trás. Não tem problema. Seremos felizes na quarta feira.

E eu não vou tirar o texto de novo, Pedro.

P.G

Mea culpa

Entre cartas e sonetos dissonantes, faço aqui, publicamente, minha mea culpa. Juro que tentei cambiar o rumo, desvirtuar (ou não) o foco, concentrar no “importante”, vestir o uniforme e seguir em frente. Mudei de ares, de bairro, de metragem quadrada e de trabalho. Contudo, após esse périplo que, confesso, não foi fácil, nada mudou. Ainda que se tenha tentado mudar a lente, os olhos são os mesmos, e reconheço a falta que me faz olhar para dentro e, num processo tortuoso, enxergar o âmago e transmutá-lo em palavras. Afirmar que nada mudou não seria correto. Muita coisa mudou, mas a essência é a mesma, e a pena continua a cobrar seu espaço em minha vida. Não há como negá-la, não há como escapar de seu chamado, ainda que muitos esforços tenham sido empregados para sufocá-la. Rendo-me, pois, à escrita, que me é tão devastadora e confortante, um verdadeiro ato de autoflagelação que, espero, me servirá de estímulo para encontrar um novo ar a oxigenar a mente descrente que sente, mas não diz aquilo que lhe compraz.

Mudança de ritmo
Em busca do equilíbrio
Necessário ao caminhar
Sempre em frente
Até o sinal de parar

Pare!

Agora volte
Três casas atrás
E lembre-se
Quem tu és
E volte a sê-lo
Senão pelo medo
De ser algo
Que não se reconhece
Através do espelho.

DF

Considerações sobre o fim

Quando dizem que a ficha demora a cair, eu digo que meu dia seguinte é o pior de todos. Leio o último grande novo poeta publicado e acho afetado demais, pretensioso demais, e depois penso que eu também publiquei um livro, e que as pessoas podem pensar assim como eu, que eu sou só uma pós adolescente tardia que faz análise com a folha de papel.

Pois agora que eu preciso que as palavras me libertem meus dedos não escrevem nada.

Tudo agora dói tanto que eu me arrependo de ter escrito qualquer coisa sobre alguém que tenha levado meu coração embora porque eu simplesmente não sabia qual era o gosto do fim.

P.G