Eixo Z

Enquanto ordeno pensamentos em orações
coordenadas e subordinadas
no estúpido esforço de redimensionar
no eixo X e Y minha consciência 3D
perco a paciência e fujo
para algum recanto mais palpável
onde a ignorância reina absoluta
e, com ela, o silêncio
que me é tão caro.

DF

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Aos miseráveis membros do Clube do Vinho

Taninos selvagens estalam em minha torpe boca, revelando a composição do vinho. Aguça o paladar, diz o velho. Não entende nada esse presunçoso. Aveludado na ponta, revela-se tímido ao fundo da língua. Baixa acidez, diz o velho. Acidez? Indago-lhe. Para mim isso mais parece vinho de mesa. Cala-te, neófito, tens muito a aprender. Tome a água, limpe sua sensibilidade. Agora tome este, que é mais rascante. Sorvo o líquido rubro, escarlate. Parece sangue, diz o jovem. E o que você entende disto? Diga-me, o que pensas sobre este? Diria que é recente, potente como um touro, no entanto desce como suco. Bom, diz o velho. Estás a aprender. Para enfezá-lo, digo que a safra é de 2003 e que se trata de um Rioja Crianza, dois anos no barril de carvalho. Ora esta, esbraveja o velho, estás me saindo um bom velhaco. Não preciso ler enciclopédias para isto velho, nasci com o dom. Muito bem, agora mais este. Já impaciente, afugento a água e sirvo-me da próxima iguaria. E agora, o que me diz? Este vinho, digo, lembra-me minha jovem amante. É mesmo? E a razão disto? É macio ao primeiro contato, mas cobra atenção ao descer, mostrando-se ácido, deixa-me zonzo, lacrimeja-me os olhos. Entendo, diz o velho lascivo. Diga-me, então acreditas que um vinho possa ser comparado a uma mulher? Claro que sim, aliás, é a minha escolha na falta delas. Podem ser combinados com certos elementos, no entanto esta escolha é extremamente difícil. Os que valem a pena são caros, por certo. Embriagam-nos facilmente e, no dia seguinte, demandam parcimônia, na forma de atenção. Não entendo, diz o velho. Não me diga que não tem ressaca? Ah, excita-se o velho. Além disto, cada espécime é diferente, variando no tipo de uva, terroir, safra e clima, produtor…Da mesma forma como cada mulher é uma história, suas curvas, suas cicatrizes, seus desejos, suas taras. Entretanto, pondera o velho, o vinho torna-se melhor com a passagem do tempo, enquanto que as mulheres murcham e se alquebram. Aí é que se engana, tolo senil. As mulheres experientes podem ensinar muito a um jovem como eu, além de já estarem calejadas e não requisitarem muito em troca, além do sexo, é claro. As jovens, por sua vez, demandam atenção, seja em forma de dinheiro, carinho, o que seja, como o faz um vinho de baixa estirpe, que custa em ser aceito pelo paladar aguçado. O velho, já febril, emborca a taça de vinho e escuta atentamente. Penso, cá com meus botões, o que é mais patético do que um velho que, tal como um vinho, não amadureceu, vivenciou situações, chorou amores e agradou mulheres?

DF

Filosofiapoesia

 

a crise de confiança da economia

é só um reflexo da ausência de confiança do homem em si mesmo,

homem este que chegou em um período crítico de sua trajetória

período este que marcará o colapso

(e aqui não pretendo ser

apocalíptico)

de toda ordem estabelecida no início do iluminismo,

e assim a mente humana romperá os limites do ego

para reconhecer sua falibilidade, sua mediocridade,

pois, apesar de todas as conquistas, da Lua, de Marte, da eletricidade,

não estamos satisfeitos, nunca estamos, e nem poderíamos estar,

porque inconscientemente sabemos

que é esse fator de distúrbio

que nos fará enxergar o que até hoje não conseguimos,

isto é, tudo que existe mas está fora de nosso alcance, e que por orgulho

decidimos ignorar, fechando assim todos os canais e pontes

que nos ligam ao desconhecido…

mas quando conectarmo-nos

não através do cabo ou do satélite ou do avião, mas através de nós

em uma jornada interior ao inominável,

é que nos encontraremos com a poesia,

com o que une a substância da palavra.

 

 

[CJ]