Eixo Z

Enquanto ordeno pensamentos em orações
coordenadas e subordinadas
no estúpido esforço de redimensionar
no eixo X e Y minha consciência 3D
perco a paciência e fujo
para algum recanto mais palpável
onde a ignorância reina absoluta
e, com ela, o silêncio
que me é tão caro.

DF

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No Sex Last Night

Querido,

Essa noite eu sonhei que você me olhava, me desejava, me puxava por trás, mordia meu peito, me chamava de gostosa, dizia que morria de tesão em mim, e que me amava, muito.

 Acordei enforcada pelo lençol ás 7h da manhã.

 

P.G

Aos miseráveis membros do Clube do Vinho

Taninos selvagens estalam em minha torpe boca, revelando a composição do vinho. Aguça o paladar, diz o velho. Não entende nada esse presunçoso. Aveludado na ponta, revela-se tímido ao fundo da língua. Baixa acidez, diz o velho. Acidez? Indago-lhe. Para mim isso mais parece vinho de mesa. Cala-te, neófito, tens muito a aprender. Tome a água, limpe sua sensibilidade. Agora tome este, que é mais rascante. Sorvo o líquido rubro, escarlate. Parece sangue, diz o jovem. E o que você entende disto? Diga-me, o que pensas sobre este? Diria que é recente, potente como um touro, no entanto desce como suco. Bom, diz o velho. Estás a aprender. Para enfezá-lo, digo que a safra é de 2003 e que se trata de um Rioja Crianza, dois anos no barril de carvalho. Ora esta, esbraveja o velho, estás me saindo um bom velhaco. Não preciso ler enciclopédias para isto velho, nasci com o dom. Muito bem, agora mais este. Já impaciente, afugento a água e sirvo-me da próxima iguaria. E agora, o que me diz? Este vinho, digo, lembra-me minha jovem amante. É mesmo? E a razão disto? É macio ao primeiro contato, mas cobra atenção ao descer, mostrando-se ácido, deixa-me zonzo, lacrimeja-me os olhos. Entendo, diz o velho lascivo. Diga-me, então acreditas que um vinho possa ser comparado a uma mulher? Claro que sim, aliás, é a minha escolha na falta delas. Podem ser combinados com certos elementos, no entanto esta escolha é extremamente difícil. Os que valem a pena são caros, por certo. Embriagam-nos facilmente e, no dia seguinte, demandam parcimônia, na forma de atenção. Não entendo, diz o velho. Não me diga que não tem ressaca? Ah, excita-se o velho. Além disto, cada espécime é diferente, variando no tipo de uva, terroir, safra e clima, produtor…Da mesma forma como cada mulher é uma história, suas curvas, suas cicatrizes, seus desejos, suas taras. Entretanto, pondera o velho, o vinho torna-se melhor com a passagem do tempo, enquanto que as mulheres murcham e se alquebram. Aí é que se engana, tolo senil. As mulheres experientes podem ensinar muito a um jovem como eu, além de já estarem calejadas e não requisitarem muito em troca, além do sexo, é claro. As jovens, por sua vez, demandam atenção, seja em forma de dinheiro, carinho, o que seja, como o faz um vinho de baixa estirpe, que custa em ser aceito pelo paladar aguçado. O velho, já febril, emborca a taça de vinho e escuta atentamente. Penso, cá com meus botões, o que é mais patético do que um velho que, tal como um vinho, não amadureceu, vivenciou situações, chorou amores e agradou mulheres?

DF

Filosofiapoesia

 

a crise de confiança da economia

é só um reflexo da ausência de confiança do homem em si mesmo,

homem este que chegou em um período crítico de sua trajetória

período este que marcará o colapso

(e aqui não pretendo ser

apocalíptico)

de toda ordem estabelecida no início do iluminismo,

e assim a mente humana romperá os limites do ego

para reconhecer sua falibilidade, sua mediocridade,

pois, apesar de todas as conquistas, da Lua, de Marte, da eletricidade,

não estamos satisfeitos, nunca estamos, e nem poderíamos estar,

porque inconscientemente sabemos

que é esse fator de distúrbio

que nos fará enxergar o que até hoje não conseguimos,

isto é, tudo que existe mas está fora de nosso alcance, e que por orgulho

decidimos ignorar, fechando assim todos os canais e pontes

que nos ligam ao desconhecido…

mas quando conectarmo-nos

não através do cabo ou do satélite ou do avião, mas através de nós

em uma jornada interior ao inominável,

é que nos encontraremos com a poesia,

com o que une a substância da palavra.

 

 

[CJ]