The Good Habits

 

trabalhe com afinco

dê esmola ao mendigo

deixe a velhinha sentar

fale sobre o tempo

 

cumprimente o porteiro

converse no elevador

beije sua mãe

tome vitamina C

 

sorria ao ver TV

cante no banheiro

feche bem a torneira

agasalhe-se direito

 

deseje boa noite 

coloque o despertador

apague a luz

masturbe-se e durma

 

[CJ]

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Para que você não desista.

Não babe, eu não sou sutil. Nunca foi o meu forte, e você sabe. Choro descaradamente na frente de quem for, não para fazer escândalo, mas porque nunca consegui conter nada que preze. Então, quando da próxima vez eu gritar e fizer uma cena ( sim, vai ter uma próxima vez, mas você sabe, é também só pra você) grita mais alto porque é no barulho que eu calo a boca, e depois me abraça, me chamando de maluca algumas dezenas de vezes para que eu não esqueça, e depois agradece babe, se faz de agradecido por entender que cada grito estridente pelo telefone é sinceridade que não cabe, é amor que não cabe, é esse meu pânico de olhar pra trás e não te ver por perto, mesmo sabendo que você sempre estará por perto. Ao alcance do lápis, perto do coração.

P.G

Auto-ajuda

– Talvez o certo seja aceitar que existem traços de nossa personalidade que, por mais profundamente que os compreendamos e tentemos mudá-los, nunca o conseguiremos. E tal se dá pelo simples fato de que essas características foram adquiridas por meio de experiências vividas, traumas sofridos, criação, família, etc. O complexo de emoções e ações que conduzem nossa vida são fruto de uma série de eventos que, individualmente considerados, não fazem muito sentido mas que, se interpretados como um todo, conferem um certo padrão que imbui essência ao indivíduo. Essa constatação, contudo, não é de nada absoluta, haja vista casos nos quais a superação e força de vontade se unem de tal modo que a pessoa conquista a capacidade de se transformar e alterar a lente através da qual enxerga a realidade. Talvez seja essa a grande conquista a ser obtida, quando poderemos dizer que sim, somos autônomos e exercemos nosso livre arbítrio de forma plena. Acredito, entretanto, que para atingir dito patamar o indivíduo deverá, necessariamente, ter empreendido grande esforço para entender e interpretar o conjunto de sentimentos que formam sua existência. Apenas a partir do autoconhecimento que se atinge a auto-suficiência e, logo, a capacidade de transformação.

Finda a palestra, o professor agradeceu aos presentes, assinou a pauta da conferência e se dirigiu ao saguão do hotel, para cumprimentar seus colegas. Muitas palavras de agradecimento lhe foram dirigidas, efusivos abraços encetados e brindes propostos. A palestra fora um sucesso, pensou. Duas horas depois, um pouco embriagado pelo vinho, despediu-se de seus pares alegando cansaço e, por fim, dirigiu-se à saída, onde um taxi o esperava para levá-lo ao hotel. A noite era fria e, apesar do avançado da hora, a viagem ainda seria longa. Pensou em seus filhos, sua mulher, mãe e pai, irmãos, primos e sobrinhos. Todos distantes entre si. Culpou o vinho pelo arroubo de emoção que lhe furtara uma lágrima. Mas no fundo ele sabia o que lhe comovia. Sabia que não lhe restaria muito tempo, que a farsa um dia seria revelada e que tudo aquilo que professara viria ao chão. A cada palestra atendida, a cada aula ministrada sentia-se um grande falsário pois, apesar de acreditar profundamente naquilo que dissera aos presentes, sabia que o pleno entendimento de si mesmo estava muito longe de suas possibilidades. Não seria nessa vida que ele seria capaz de superar seus próprios tormentos e tornar-se o homem que gostaria de ser. Era, sabia, apenas mais um hipócrita a vender falsas esperanças aos incautos e desesperados.

DF

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Cheshire Cat.

Eu pensei que você tivesse fodido tudo.
Fodido tudo de novo.
Mas aí eu percebi que fui eu.
Que durante todo esse tempo fui eu que fui infiel, egocêntrica, má, aproveitadora de palavras e do seu me tratar assim pelas beiradas. Era na falta que eu conseguia criar. E eu te amei, por cada palavra.
E aí, quando eu passei a te odiar, por mais uma vez você ter me deixado na mão, eu percebi a raiva que eu tava, que raiva eu tava.
Por não sentir mais nada.
Agora só fica um buraco. Nada pra preencher. E preguiça de um novo amor.
Muita preguiça.
E aí eu te odeio
Por não sair mais nada
Por não conseguir te dar mais nada.
Nada além desse sorriso.
Amarelo.