A verdade é o discurso

Pagou a conta e foi embora pensando no que fizera de errado. Afinal, comportara-se daquela maneira com o intuito de ser uma boa companhia para ela, só isso. Não merecia ter sido deixado assim, sozinho naquele café, sem maiores explicações. Chegou em casa com esse fardo, e por causa dele tornou-se ácido. Entrou batendo a porta, não falou com ninguém e foi direto para o quarto. Contentou-se em estar nele, pois assim poderia pensar melhor e assimilar tudo o que havia acontecido. Mas tentava, tentava e não conseguia. Decidiu escrever. Quem sabe se colocada no papel, aquela cena não seria enfim compreendida? A estratégia textual logo veio-lhe a mente. Utilizar-se-ia do processo de empatia, aquele no qual o observador despe-se de si para tentar apreender a perspectiva psicológica do outro. Escreveu com facilidade e talento, e pouco tempo depois, o conto estava pronto. A personagem da menina era patética, limitada, incapaz de valorizar o que é bom. E ele, o superior, o incompreendido, não percebeu que mais uma vez utilizava-se da literatura como um instrumento de vingança.

 

[CJ]

Anúncios

A primeira impressão

Traga-me o menu, por favor? Logo que sentaram-se à mesa, foi assim que ele dirigiu-se ao garçom, em um tom polido, com a voz empostada, utilizando as técnicas que aprendera em um curso de oratória. Após esta fala, preocupou-se com sua postura, verificou sua coluna e o ângulo que mantinha entre o pescoço e o queixo. Assegurando-se que sentara de acordo com o que vira nas aulas de ioga, tranquilizou-se, e então abriu um leve sorriso e olhou para ela, que já havia cruzado as pernas e acendido um cigarro. Começaram a falar sobre Tolstói, mas o assunto não rendeu muito. O cappuccino dela chegou, junto do café descafeinado pedido por ele. Beberam rapidamente, o rapaz comeu um pequeno biscoito que viera no pires, levantou-se e avisou que iria ao toalete. Lá chegando, olhou-se no espelho, ajeitou o cabelo com as mãos, verificou os dentes, esperou mais alguns segundos e abriu a porta. Aproximou-se de onde estavam mas não viu a menina, e concluiu que ela também tinha ido ao toalete. Entretanto, quando sentou, percebeu seu engano ao encontrar sobre a mesa duas xícaras sujas e um guardanapo, no qual estava escrito: tchau, seu ridículo.

 

[CJ]

Le Château de la Mélancolie

E do alto da mais bela torre do castelo da melancolia, os gritos ecoam.

Impotentemente calmo, o fiel escudeiro se dirige à porta da torre, apenas para descobrir que não há nada a ser feito, a não ser lamentar sua própria incompreensão sobre acontecimentos pretéritos que perpassam o presente e se estendem no futuro.

Seria o tempo realmente relativo, como predisse o oráculo? Pensou.

Gostaria que a relatividade se manifestasse nesse exato momento, para transportá-lo a épocas outras, nas quais o ar era mais leve e o fardo doce. Face a mais uma pergunta que não poderia responder, o fiel escudeiro cumpre com suas obrigações e retorna ao seu aposento, localizado no nível mais inferior. Já deitado, dirige uma prece a outra esfera, pedindo um sonho bonito que fosse para que pudesse sustentar o sorriso no dia seguinte.

DF