A verdade é o discurso

Pagou a conta e foi embora pensando no que fizera de errado. Afinal, comportara-se daquela maneira com o intuito de ser uma boa companhia para ela, só isso. Não merecia ter sido deixado assim, sozinho naquele café, sem maiores explicações. Chegou em casa com esse fardo, e por causa dele tornou-se ácido. Entrou batendo a porta, não falou com ninguém e foi direto para o quarto. Contentou-se em estar nele, pois assim poderia pensar melhor e assimilar tudo o que havia acontecido. Mas tentava, tentava e não conseguia. Decidiu escrever. Quem sabe se colocada no papel, aquela cena não seria enfim compreendida? A estratégia textual logo veio-lhe a mente. Utilizar-se-ia do processo de empatia, aquele no qual o observador despe-se de si para tentar apreender a perspectiva psicológica do outro. Escreveu com facilidade e talento, e pouco tempo depois, o conto estava pronto. A personagem da menina era patética, limitada, incapaz de valorizar o que é bom. E ele, o superior, o incompreendido, não percebeu que mais uma vez utilizava-se da literatura como um instrumento de vingança.

 

[CJ]

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