Sábado chuvoso

O Rio:

chovendo…
inunda!

Mas desnuda
Sua beleza,

Com tambores
De água,

Celebrando
A paz.

K.p.

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A última página do diário

Como todos, quando jovens, sonhei dominar o mundo com as minhas palavras. Sonhei, por noites e dias, num labor silêncio e solitário, encontrar as palavras, que tocariam os corações, que, entre pontos e vírgulas, alimentaria o fogo das memórias, mais prazerosas, da experiência dos meus leitores.

Falhei. Fui vencido por mim. Chego ao fim desta última página, deste diário embolorado, sem as respostas que almejei encontrar. Minhas idéias, meus gritos, ecoaram pelo tempo mas em nada reverberaram. Acabaram como a gota da chuva, transformada em água, num fundo de lago. Não deixará lembrança.

Depois do amor, só a inocência me fez cego tanto tempo. Quantas tentativas! Como poderia eu, que só aprendi a ler depois de todos os outros, que só comecei a escrever, quando todos já rimavam, e que, de sempre em sempre tropeçava num P e num B, num M e num N, e em todos os acentos e outros labirintos deste vernáculo secular. Como poderia eu, querer ser poeta? Cronista? Escritor?

Não dava. Mas tentei. Tentei me mostrar por inteiro, escondido em versos fagueiros, tão brasileiros! Não consegui. Desiludi. Junto com essas últimas palavras, deixo minha espada e escudo: a caneta e o papel.

Pagarei a fiança pelo meu empenho, aprissionarei minha alma num engenho, e sendo só corpo, levarei a vida, assinando papéis, sempre em busca dos mil réis. Movendo a engrenagem do mundo, escravo de minhas ambições, aceitarei minha condição, de pobre cidadão, que acorda, dorme e vive, só pensando em como conseguir o próximo pão.

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2008,

p.s.p.k.

Memórias d’uma puta velha

Num buteco sujo
fedendo a álcool e imundo
vejo o dia nascer e crescer
sentindo o mundo girar.

Dedilho as horas
contando o tempo e histórias
de glórias de outrora
que vi, e voltei pra contar.

Esqueço-me como problema
e de uma auto-estima pequena
faço um velho pato feio
virar galo e cacarejar.

Neste chiqueiro com letreiro
sento ao lado duma princesa
que de longe – que beleza!
Mas perto, quanta tristeza

Bêbada, só sabia balbuciar:
me dá, me dá, me dá!
Um trocadinho meu amor
para eu poder cheirar.

pk.

Eu-hermético

 

 

Não pretendo que ninguém entenda.

Mas farei aqui minhas oferendas

Às loucas profundezas do meu ser.

 

Que é pobre, como as mulheres escravas

Caminhando acorrentadas no deserto,

Onde sem água, comida ou afeto

 

Deixam escorrer um feto

Por entre as pernas

Pois o corpo não pode mais suportar.

 

Que é bêbado, de vertigens pós-modernas

Cujas ondas eu enfrento e carrego

No comando do meu próprio barco.

 

Afinal, sem torpor seria intransponível

Atravessar tantos desejos malditos

Saindo da boca das sereias de Ossanha.

 

Que é duplo, no sim e no não dos sentidos

Da vontade de falar mas só praticar o silêncio

Poupando algumas verdades, àqueles que não querem ver.

 

Como um peixe que aprecia a Rede

Balançando na maré de otimismo e medo

Sempre a mesma história, com o mesmo enredo.

 

Por isso mesmo dormindo estou acordado

Lutando no exército de mim mesmo

Que batalha nas fronteiras do horizonte

 

………………………………………………………

Derrubando estereótipos

……………………………………………………..

 

Buscando a independência dos ideais

Sob o comando de dois generais:

Eu e meu Eu-hermético.

 

Paco Kasper

A…

Não sou feliz, e fico irritado

Quando um bando de chatos

Chegam e tentam me alegrar.

 

Não acredito em pensamento positivo

Tal mentira do selvagem capitalismo.

Nunca tirou ninguém do aperto

Mas fez pilhas de dinheiro,

No bolso do livreiro, de auto-ajuda.

 

Prefiro a tristeza e a angústia

Como revelado na foto da tia Augusta

Senhora que viveu sem nunca ter sorrido

E quando inquirida o que havia sofrido

Sempre respondia:

 

Felicidade? Mal da idade.

Prefiro o Prozac, que me faz dançar

Sem precisar de um velho par.

 

 

K.p.

Só vale se for para valer

                                                          

Quando o médico chegou

Usou pouca voz e relatou

Que o estado era grave:

Paralisia das paixões vorazes.

 

O paciente, semi-demente,

Há meses nada escrevia

Tampouco lia – era só agonia –

De uma vida vidinha,

 

De um corpo torto:

Pelo capital educado,

Pelo físico limitado,

Pela morte desesperado;

 

Que preferiu entregar-se

A uma vida de nostalgia

À viver no Éden

Com mil putas numa orgia.

[K.p.]