Compromisso de Berlim

Há dez anos tivemos um filho, fruto de um amor incondicional à palavra escrita. Mesmo antes da publicação do nosso livro, entretanto, já não escrevíamos com o mesmo afinco de quando começamos o projeto, dois anos antes.

Houve alguma razão para tanto? A nossa paixão pela literatura e pela escrita diminuiu, mudou ou de alguma outra forma se desvirtuou? Creio que não. Na visão deste que vos escreve, acredito que, à exceção de uma pessoa, os demais membros resolveram dedicar energia a outros projetos, estudos, carreira, amores, família, etc.

No meu caso, sinto lhes dizer que repito as mesmas desculpas há dez anos: deixei de escrever porque doía demasiado, a angustia que alimentava meu processo criativo passara; deixei de escrever porque trabalho demais, meu Eu lírico afundado em planilhas, trabalho; deixei de escrever porque não leio mais tanto, meu tempo livre preenchido por séries, filmes e outras drogas.

A verdade, meus caros, é que sou covarde. Apavora-me a ideia de olhar para dentro e ouvir meus sentimentos, ainda tão confusos no auge dos meus 30 anos. Apavora-me olhar para uma tela ou caderno e encarar o receio de não conseguir escrever no mesmo nível de antes. Apavoro-me.

No entanto, gostaria de lhes dizer que não quero mais sentir medo. CHEGA. Não quero mais fingir que inexiste dentro de mim um passageiro que grita para ser ouvido. Não quero mais entorpecer meus sentimentos pelo medo de que perderei controle. Não quero.

Dessa forma, convoco-lhes às armas mais uma vez, para que juntos consigamos reestabelecer um diálogo com a palavra escrita e não somente com ela, mas com qualquer meio de expressão que nos sirva de catarse criativa.

Dez anos depois, cavalgarmos juntos novamente pelas vias incertas de nossos sentimentos, com apenas um objetivo em mente: expressão artística. Este é o compromisso que lhes proponho. O que dizem vocês?

DF

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London I love you, but you’re freaking me out…

O passado nunca mente, meu caro. Não há como escapá-lo. Deve-se tentar encará-lo de frente, ainda que se tente emendá-lo. Tentou? Não deu certo? A frente. Por mais que doa, por mais que se sinta incompreendido ou por mais que se reconheça um merda, siga em frente. Nada há de parar por você. O tempo, os sentimentos, não pararão. Sinto muito.

Por mais que as vezes se pense que, na verdade, existem coisas mais relevantes que meros percalços, nunca se pode extrapolar sua própria interpretação do ocorrido aos demais. Nunca entenderão. Ainda que se cogite a idéia de que o havido foi mais importante do que qualquer outra coisa, ainda que o sentimento esteja lá, nada irá apagar os fatos.

Sinto muito.

Cresça e apareça.

DF

Até logo

Eu gostaria de escrever uma carta aberta de despedida, mas eu sei que isso não vai funcionar. Queria dizer a todos os amigos o quão queridos eles são e o quanto eles me farão falta. Queria dizer a minha ex-namorada que eu a amei até o meu possível. Queria dizer a todos os colegas o prazer que foi dividir o trabalho. Não há como transpor ao papel tantas coisas… seria uma amálgama de palavras que não fariam qualquer sentido. Calo-me pelo momento, pois tenho absoluta certeza de que o distanciamento físico e temporal me possibilitarão o discernimento necessário. Para escrever todas as cartas, para dizer os devidos “adeus”, para aprender a sentir, amar, viver… Seja o que for que me espera, que seja intenso. E tenho dito.

DF

Le Château de la Mélancolie

E do alto da mais bela torre do castelo da melancolia, os gritos ecoam.

Impotentemente calmo, o fiel escudeiro se dirige à porta da torre, apenas para descobrir que não há nada a ser feito, a não ser lamentar sua própria incompreensão sobre acontecimentos pretéritos que perpassam o presente e se estendem no futuro.

Seria o tempo realmente relativo, como predisse o oráculo? Pensou.

Gostaria que a relatividade se manifestasse nesse exato momento, para transportá-lo a épocas outras, nas quais o ar era mais leve e o fardo doce. Face a mais uma pergunta que não poderia responder, o fiel escudeiro cumpre com suas obrigações e retorna ao seu aposento, localizado no nível mais inferior. Já deitado, dirige uma prece a outra esfera, pedindo um sonho bonito que fosse para que pudesse sustentar o sorriso no dia seguinte.

DF

Auto-ajuda

– Talvez o certo seja aceitar que existem traços de nossa personalidade que, por mais profundamente que os compreendamos e tentemos mudá-los, nunca o conseguiremos. E tal se dá pelo simples fato de que essas características foram adquiridas por meio de experiências vividas, traumas sofridos, criação, família, etc. O complexo de emoções e ações que conduzem nossa vida são fruto de uma série de eventos que, individualmente considerados, não fazem muito sentido mas que, se interpretados como um todo, conferem um certo padrão que imbui essência ao indivíduo. Essa constatação, contudo, não é de nada absoluta, haja vista casos nos quais a superação e força de vontade se unem de tal modo que a pessoa conquista a capacidade de se transformar e alterar a lente através da qual enxerga a realidade. Talvez seja essa a grande conquista a ser obtida, quando poderemos dizer que sim, somos autônomos e exercemos nosso livre arbítrio de forma plena. Acredito, entretanto, que para atingir dito patamar o indivíduo deverá, necessariamente, ter empreendido grande esforço para entender e interpretar o conjunto de sentimentos que formam sua existência. Apenas a partir do autoconhecimento que se atinge a auto-suficiência e, logo, a capacidade de transformação.

Finda a palestra, o professor agradeceu aos presentes, assinou a pauta da conferência e se dirigiu ao saguão do hotel, para cumprimentar seus colegas. Muitas palavras de agradecimento lhe foram dirigidas, efusivos abraços encetados e brindes propostos. A palestra fora um sucesso, pensou. Duas horas depois, um pouco embriagado pelo vinho, despediu-se de seus pares alegando cansaço e, por fim, dirigiu-se à saída, onde um taxi o esperava para levá-lo ao hotel. A noite era fria e, apesar do avançado da hora, a viagem ainda seria longa. Pensou em seus filhos, sua mulher, mãe e pai, irmãos, primos e sobrinhos. Todos distantes entre si. Culpou o vinho pelo arroubo de emoção que lhe furtara uma lágrima. Mas no fundo ele sabia o que lhe comovia. Sabia que não lhe restaria muito tempo, que a farsa um dia seria revelada e que tudo aquilo que professara viria ao chão. A cada palestra atendida, a cada aula ministrada sentia-se um grande falsário pois, apesar de acreditar profundamente naquilo que dissera aos presentes, sabia que o pleno entendimento de si mesmo estava muito longe de suas possibilidades. Não seria nessa vida que ele seria capaz de superar seus próprios tormentos e tornar-se o homem que gostaria de ser. Era, sabia, apenas mais um hipócrita a vender falsas esperanças aos incautos e desesperados.

DF

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Eixo Z

Enquanto ordeno pensamentos em orações
coordenadas e subordinadas
no estúpido esforço de redimensionar
no eixo X e Y minha consciência 3D
perco a paciência e fujo
para algum recanto mais palpável
onde a ignorância reina absoluta
e, com ela, o silêncio
que me é tão caro.

DF

Aos miseráveis membros do Clube do Vinho

Taninos selvagens estalam em minha torpe boca, revelando a composição do vinho. Aguça o paladar, diz o velho. Não entende nada esse presunçoso. Aveludado na ponta, revela-se tímido ao fundo da língua. Baixa acidez, diz o velho. Acidez? Indago-lhe. Para mim isso mais parece vinho de mesa. Cala-te, neófito, tens muito a aprender. Tome a água, limpe sua sensibilidade. Agora tome este, que é mais rascante. Sorvo o líquido rubro, escarlate. Parece sangue, diz o jovem. E o que você entende disto? Diga-me, o que pensas sobre este? Diria que é recente, potente como um touro, no entanto desce como suco. Bom, diz o velho. Estás a aprender. Para enfezá-lo, digo que a safra é de 2003 e que se trata de um Rioja Crianza, dois anos no barril de carvalho. Ora esta, esbraveja o velho, estás me saindo um bom velhaco. Não preciso ler enciclopédias para isto velho, nasci com o dom. Muito bem, agora mais este. Já impaciente, afugento a água e sirvo-me da próxima iguaria. E agora, o que me diz? Este vinho, digo, lembra-me minha jovem amante. É mesmo? E a razão disto? É macio ao primeiro contato, mas cobra atenção ao descer, mostrando-se ácido, deixa-me zonzo, lacrimeja-me os olhos. Entendo, diz o velho lascivo. Diga-me, então acreditas que um vinho possa ser comparado a uma mulher? Claro que sim, aliás, é a minha escolha na falta delas. Podem ser combinados com certos elementos, no entanto esta escolha é extremamente difícil. Os que valem a pena são caros, por certo. Embriagam-nos facilmente e, no dia seguinte, demandam parcimônia, na forma de atenção. Não entendo, diz o velho. Não me diga que não tem ressaca? Ah, excita-se o velho. Além disto, cada espécime é diferente, variando no tipo de uva, terroir, safra e clima, produtor…Da mesma forma como cada mulher é uma história, suas curvas, suas cicatrizes, seus desejos, suas taras. Entretanto, pondera o velho, o vinho torna-se melhor com a passagem do tempo, enquanto que as mulheres murcham e se alquebram. Aí é que se engana, tolo senil. As mulheres experientes podem ensinar muito a um jovem como eu, além de já estarem calejadas e não requisitarem muito em troca, além do sexo, é claro. As jovens, por sua vez, demandam atenção, seja em forma de dinheiro, carinho, o que seja, como o faz um vinho de baixa estirpe, que custa em ser aceito pelo paladar aguçado. O velho, já febril, emborca a taça de vinho e escuta atentamente. Penso, cá com meus botões, o que é mais patético do que um velho que, tal como um vinho, não amadureceu, vivenciou situações, chorou amores e agradou mulheres?

DF

Mea culpa

Entre cartas e sonetos dissonantes, faço aqui, publicamente, minha mea culpa. Juro que tentei cambiar o rumo, desvirtuar (ou não) o foco, concentrar no “importante”, vestir o uniforme e seguir em frente. Mudei de ares, de bairro, de metragem quadrada e de trabalho. Contudo, após esse périplo que, confesso, não foi fácil, nada mudou. Ainda que se tenha tentado mudar a lente, os olhos são os mesmos, e reconheço a falta que me faz olhar para dentro e, num processo tortuoso, enxergar o âmago e transmutá-lo em palavras. Afirmar que nada mudou não seria correto. Muita coisa mudou, mas a essência é a mesma, e a pena continua a cobrar seu espaço em minha vida. Não há como negá-la, não há como escapar de seu chamado, ainda que muitos esforços tenham sido empregados para sufocá-la. Rendo-me, pois, à escrita, que me é tão devastadora e confortante, um verdadeiro ato de autoflagelação que, espero, me servirá de estímulo para encontrar um novo ar a oxigenar a mente descrente que sente, mas não diz aquilo que lhe compraz.

Mudança de ritmo
Em busca do equilíbrio
Necessário ao caminhar
Sempre em frente
Até o sinal de parar

Pare!

Agora volte
Três casas atrás
E lembre-se
Quem tu és
E volte a sê-lo
Senão pelo medo
De ser algo
Que não se reconhece
Através do espelho.

DF