Confissão

Minha polidez e cortesia, querida, só duram até a quinta dose, quando enfim as ilusões de controle se esvaem e o caos que sou transborda.

DF

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Para que você não desista.

Não babe, eu não sou sutil. Nunca foi o meu forte, e você sabe. Choro descaradamente na frente de quem for, não para fazer escândalo, mas porque nunca consegui conter nada que preze. Então, quando da próxima vez eu gritar e fizer uma cena ( sim, vai ter uma próxima vez, mas você sabe, é também só pra você) grita mais alto porque é no barulho que eu calo a boca, e depois me abraça, me chamando de maluca algumas dezenas de vezes para que eu não esqueça, e depois agradece babe, se faz de agradecido por entender que cada grito estridente pelo telefone é sinceridade que não cabe, é amor que não cabe, é esse meu pânico de olhar pra trás e não te ver por perto, mesmo sabendo que você sempre estará por perto. Ao alcance do lápis, perto do coração.

P.G

Auto-ajuda

– Talvez o certo seja aceitar que existem traços de nossa personalidade que, por mais profundamente que os compreendamos e tentemos mudá-los, nunca o conseguiremos. E tal se dá pelo simples fato de que essas características foram adquiridas por meio de experiências vividas, traumas sofridos, criação, família, etc. O complexo de emoções e ações que conduzem nossa vida são fruto de uma série de eventos que, individualmente considerados, não fazem muito sentido mas que, se interpretados como um todo, conferem um certo padrão que imbui essência ao indivíduo. Essa constatação, contudo, não é de nada absoluta, haja vista casos nos quais a superação e força de vontade se unem de tal modo que a pessoa conquista a capacidade de se transformar e alterar a lente através da qual enxerga a realidade. Talvez seja essa a grande conquista a ser obtida, quando poderemos dizer que sim, somos autônomos e exercemos nosso livre arbítrio de forma plena. Acredito, entretanto, que para atingir dito patamar o indivíduo deverá, necessariamente, ter empreendido grande esforço para entender e interpretar o conjunto de sentimentos que formam sua existência. Apenas a partir do autoconhecimento que se atinge a auto-suficiência e, logo, a capacidade de transformação.

Finda a palestra, o professor agradeceu aos presentes, assinou a pauta da conferência e se dirigiu ao saguão do hotel, para cumprimentar seus colegas. Muitas palavras de agradecimento lhe foram dirigidas, efusivos abraços encetados e brindes propostos. A palestra fora um sucesso, pensou. Duas horas depois, um pouco embriagado pelo vinho, despediu-se de seus pares alegando cansaço e, por fim, dirigiu-se à saída, onde um taxi o esperava para levá-lo ao hotel. A noite era fria e, apesar do avançado da hora, a viagem ainda seria longa. Pensou em seus filhos, sua mulher, mãe e pai, irmãos, primos e sobrinhos. Todos distantes entre si. Culpou o vinho pelo arroubo de emoção que lhe furtara uma lágrima. Mas no fundo ele sabia o que lhe comovia. Sabia que não lhe restaria muito tempo, que a farsa um dia seria revelada e que tudo aquilo que professara viria ao chão. A cada palestra atendida, a cada aula ministrada sentia-se um grande falsário pois, apesar de acreditar profundamente naquilo que dissera aos presentes, sabia que o pleno entendimento de si mesmo estava muito longe de suas possibilidades. Não seria nessa vida que ele seria capaz de superar seus próprios tormentos e tornar-se o homem que gostaria de ser. Era, sabia, apenas mais um hipócrita a vender falsas esperanças aos incautos e desesperados.

DF

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Cheshire Cat.

Eu pensei que você tivesse fodido tudo.
Fodido tudo de novo.
Mas aí eu percebi que fui eu.
Que durante todo esse tempo fui eu que fui infiel, egocêntrica, má, aproveitadora de palavras e do seu me tratar assim pelas beiradas. Era na falta que eu conseguia criar. E eu te amei, por cada palavra.
E aí, quando eu passei a te odiar, por mais uma vez você ter me deixado na mão, eu percebi a raiva que eu tava, que raiva eu tava.
Por não sentir mais nada.
Agora só fica um buraco. Nada pra preencher. E preguiça de um novo amor.
Muita preguiça.
E aí eu te odeio
Por não sair mais nada
Por não conseguir te dar mais nada.
Nada além desse sorriso.
Amarelo.

Eixo Z

Enquanto ordeno pensamentos em orações
coordenadas e subordinadas
no estúpido esforço de redimensionar
no eixo X e Y minha consciência 3D
perco a paciência e fujo
para algum recanto mais palpável
onde a ignorância reina absoluta
e, com ela, o silêncio
que me é tão caro.

DF

Aos miseráveis membros do Clube do Vinho

Taninos selvagens estalam em minha torpe boca, revelando a composição do vinho. Aguça o paladar, diz o velho. Não entende nada esse presunçoso. Aveludado na ponta, revela-se tímido ao fundo da língua. Baixa acidez, diz o velho. Acidez? Indago-lhe. Para mim isso mais parece vinho de mesa. Cala-te, neófito, tens muito a aprender. Tome a água, limpe sua sensibilidade. Agora tome este, que é mais rascante. Sorvo o líquido rubro, escarlate. Parece sangue, diz o jovem. E o que você entende disto? Diga-me, o que pensas sobre este? Diria que é recente, potente como um touro, no entanto desce como suco. Bom, diz o velho. Estás a aprender. Para enfezá-lo, digo que a safra é de 2003 e que se trata de um Rioja Crianza, dois anos no barril de carvalho. Ora esta, esbraveja o velho, estás me saindo um bom velhaco. Não preciso ler enciclopédias para isto velho, nasci com o dom. Muito bem, agora mais este. Já impaciente, afugento a água e sirvo-me da próxima iguaria. E agora, o que me diz? Este vinho, digo, lembra-me minha jovem amante. É mesmo? E a razão disto? É macio ao primeiro contato, mas cobra atenção ao descer, mostrando-se ácido, deixa-me zonzo, lacrimeja-me os olhos. Entendo, diz o velho lascivo. Diga-me, então acreditas que um vinho possa ser comparado a uma mulher? Claro que sim, aliás, é a minha escolha na falta delas. Podem ser combinados com certos elementos, no entanto esta escolha é extremamente difícil. Os que valem a pena são caros, por certo. Embriagam-nos facilmente e, no dia seguinte, demandam parcimônia, na forma de atenção. Não entendo, diz o velho. Não me diga que não tem ressaca? Ah, excita-se o velho. Além disto, cada espécime é diferente, variando no tipo de uva, terroir, safra e clima, produtor…Da mesma forma como cada mulher é uma história, suas curvas, suas cicatrizes, seus desejos, suas taras. Entretanto, pondera o velho, o vinho torna-se melhor com a passagem do tempo, enquanto que as mulheres murcham e se alquebram. Aí é que se engana, tolo senil. As mulheres experientes podem ensinar muito a um jovem como eu, além de já estarem calejadas e não requisitarem muito em troca, além do sexo, é claro. As jovens, por sua vez, demandam atenção, seja em forma de dinheiro, carinho, o que seja, como o faz um vinho de baixa estirpe, que custa em ser aceito pelo paladar aguçado. O velho, já febril, emborca a taça de vinho e escuta atentamente. Penso, cá com meus botões, o que é mais patético do que um velho que, tal como um vinho, não amadureceu, vivenciou situações, chorou amores e agradou mulheres?

DF

Filosofiapoesia

 

a crise de confiança da economia

é só um reflexo da ausência de confiança do homem em si mesmo,

homem este que chegou em um período crítico de sua trajetória

período este que marcará o colapso

(e aqui não pretendo ser

apocalíptico)

de toda ordem estabelecida no início do iluminismo,

e assim a mente humana romperá os limites do ego

para reconhecer sua falibilidade, sua mediocridade,

pois, apesar de todas as conquistas, da Lua, de Marte, da eletricidade,

não estamos satisfeitos, nunca estamos, e nem poderíamos estar,

porque inconscientemente sabemos

que é esse fator de distúrbio

que nos fará enxergar o que até hoje não conseguimos,

isto é, tudo que existe mas está fora de nosso alcance, e que por orgulho

decidimos ignorar, fechando assim todos os canais e pontes

que nos ligam ao desconhecido…

mas quando conectarmo-nos

não através do cabo ou do satélite ou do avião, mas através de nós

em uma jornada interior ao inominável,

é que nos encontraremos com a poesia,

com o que une a substância da palavra.

 

 

[CJ]

Idioma

 

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Bula:

Há duas diferentes maneiras de ler-se este poema.

A primeira e mais aconselhável é tomá-lo como hispânico. Isto facilita a digestão do componente autoexplicativo nele presente, e, do título ao último verso, deixa-o em plena harmonia gramatical.

A segunda e última consiste em enxergá-lo como bilíngue, o que implica em associá-lo à Vicky Cristina Barcelona, como verificado na totalidade dos testes empíricos realizados.

Quaisquer outras interpretações devem ser consideradas devaneios, desvios semânticos da crítica.

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Claro está

que este paradigma

se aplica:

 

todos estamos

familiarizados

con el español.

 

 

[CJ]